JOELMIR BETING
''Homens e nações responsabilizam os outros por seus fracassos. É justo começar a responsabilizá-los também por seus sucessos.''
Mark Twain (1835-1910), escritor americano
Dança com lobos
Na carta de intenção enviada ao FMI, o governo Lula avisa que já desfruta de condições concretas e objetivas para ''relaxar a política monetária''. Na assembléia anual do FMI, que se desenrola no bilionário emirado árabe do Dubai, o diretor da banda ocidental da estressada instituição diz que o Brasil, in facto, exagera nos recolhimentos compulsórios e nos spreads bancários.
Bingo! O manda-chuva do FMI, o alemão Horst Köhler, em discurso, segunda-feira, para ministros de Finanças dos 184 países do Fundo, extrapolou: o presidente Lula já pode ser comparado ao chanceler Ludwig Erhardt (1897-1977), fiador do ''milagre alemão'' do pós-guerra. Há um ano, ainda no palanque, Lula era comparado a Fidel Castro, a Hugo Chavez e a Salvador Allende. Aqui dentro, já foi comparado a Jango, a Juscelino e a Tancredo.
Indicadores preferenciais da banca internacional, que tem no FMI seu auditor de confiança nas contas e nos planos dos governos devedores, apontam para a rápida convalescença do Brasil na UTI do FMI. A ponto de o próprio Fundo suspirar fundo: nem mais haveria necessidade de uma prorrogação da blindagem financeira do Brasil.
O ajuste fiscal, com superávit primário acima de 5% do PIB (ou acima da meta de 4,25% oferecida pelo Brasil), ganha a companhia de um ajuste externo supimpa. O déficit em conta corrente, oscilômetro da vulnerabilidade do país, está projetado para 0,1% do PIB em 2003 (contra 1,6% em 2002 e 4,6% em 2001).
Com reservas recolocadas na faixa de US$ 65 bilhões nesta virada de outubro, o mercado financeiro jura por todos os juros que o câmbio está flutuando em uma banda estável, com desvalorização de 20% em relação à taxa efetiva real de equilíbrio (vixe!). Algo como emitir duas notícias, uma boa, outra má, dependendo da posição de cada um diante dessa bola de tantos lados: 1) o dólar não sobe mais; 2) o dólar não desce mais.
Auscultados pelo Banco Central na semana passada, bancos e consultorias projetam, para este ano, uma cotação média de R$ 3,11 por dólar. Ou de R$ 3,26, em 2004. Em 2002, ano da bolha cambial, a média ficou em R$ 2,94. Portanto, está-se diante de uma elevação nominal, este ano, de apenas 6%. Como a inflação do ano, medida pelo IPCA, está estimada em 9,6%, temos uma suave queda real do dólar nesta travessia do primeiro ano do governo Lula.
A mesma pesquisa semanal do Banco Central revela que o PIB de 2003 tende a ficar a meio caminho do PIB de 2002. Ou nada além de 0,7% a 0,8%, este ano, contra 1,5% no ano passado. O governo está dividido nessa mesma projeção. Enquanto o Banco Central aposta em alguma coisa acima de 1%, o Ipea, do Ministério do Planejamento, sustenta que não vamos passar de 0,5%.
E a Selic? O mercado financeiro acredita em taxa básica abaixo de 18% na véspera do Natal. Ou de 15% lá no final de 2004.
S E C O S & M OL H AD O S
Taxa real - Com o IPCA embicado para a meta de 5,5% em 2004, temos que a taxa básica real vai continuar beliscando dois dígitos. Pouco a ver com a intenção de ''relaxar a política monetária''. E nada a ver com PIB projetado para 3% em 2004. Sim, no segundo ano do governo de 10 milhões de novos empregos em quatro anos.
Papagaio - A dívida pública (que financia o déficit público do presente, do passado e do futuro) fechou agosto em R$ 753 bilhões (dos quais, R$ 57,6 bilhões rolados a curto prazo). A Selic de 22% remunera metade (50,7,%) desse papagaio verde-amarelo. O prazo médio de vencimento é de 31,4 meses. Razoável.
Refresco - A dívida atrelada ao câmbio, traço de chantagem emocional do mercado, baixou a crista para 28,1% do total. Na posse de Lula, estava em 36,4%. Com o investidor exigindo rolagem de quase 100%. Em agosto, a rolagem não passou de 34%.
www.joelmirbeting.com.br





