JOELMIR BETING
''Fome Zero: o Brasil que come ajudando o Brasil que tem fome.''
Slogan do Programa Fome Zero
No palco do mundo
Brandindo o Fome Zero, o presidente Lula vai discursar hoje para o mundo inteiro, literalmente, no discurso de abertura da 58 Assembléia-Geral da ONU, em Nova York. Nesta sua 18 viagem ao Exterior, em menos de nove meses, o presidente deve empenhar dois terços dos seus 15 minutos de fama falando em nome dos excluídos e outro terço em nome dos emergentes.
No sopro do trombone dos excluídos, ele bem que poderia repetir as palavras do senador Aloizio Mercadante (PT), líder do governo no Senado: ''Abnegados quadrúpedes, vacas e bois americanos e europeus ganham ajuda oficial de US$ 2 por dia (além da casa, da comida e da vacina que já recebem do dono do curral). Já os humanos, bípedes implumes, cerca de 1,2 bilhão deles, vegetam com menos de US$ 1 por dia. Um quinto da Humanidade.''
Na representação dos emergentes, o presidente Lula igualmente poderia reprisar o discurso do ministro Antonio Palocci, na assembléia anual do FMI, em Dubai: ''O protecionismo comercial dos países ricos constitui aos olhos dos países pobres uma intolerável hipocrisia.'' Uma hipocrisia que escapou ilesa de pressões lideradas pelo Brasil na fracassada conferência ministerial da OMC, em Cancún.
Hipocrisia do discurso nixoniano do ''mais comércio, menos ajuda''. Até aqui, menos comércio e menos ajuda. Com direito a um puxão de orelhas (as dos pobres) no Relatório de Desenvolvimento 2004, divulgado sábado pelo Banco Mundial: a) os países pobres gastam pouco e gastam mal na área social; b) burocracia, ineficiência, clientelismo e corrupção respondem pelo trágico desperdício de recursos escassos.
Carapuça que desce pescoço abaixo do Brasil. Aqui, não é de hoje, recursos alocados para programas sociais são devorados em quase 80% pela atividade-meio, sobrando apenas um quinto para a atividade-fim. Será que a unificação dos programas sociais, em discussão no governo Lula, conseguirá dar uma descarga sanitária no sistema?
O próprio Fome Zero já sentiu o tranco dos defeitos de fabricação do Estado brasileiro. O programa acaba de ser quase todo drenado para as pastas da Saúde e da Educação, com sobras para a Reforma Agrária. Do que resultou uma baita machadada de 77% na ração do próprio Fome Zero para 2004. Orçamento já raquítico no original: R$ 1,7 bilhão. Despenca agora para R$ 400 milhões.
A revista Primeira Leitura, de setembro, dá em matéria de capa que o Fome Zero simplesmente não existe. Não tem passado de uma carta de intenção à ninguenzada verde-amarela de anemia. Ou ainda: no primeiro orçamento geral do governo Lula (2004), a área social vai ficar com 70,25%. Abaixo da tranche a ela reservada pelo governo FHC aqui para este ano: 72,25%. Com o grifo de Rui Nogueira, mirando o Fome Zero: ''Na área social, o que funciona não é novo; e o que é novo não funciona.''
S E C O S & M O L H AD O S
Retórica - Nada impede que o presidente Lula, hoje no palco da ONU (Nova York), esfregue o Fome Zero na cara do mundo. Ele já o fizera, em janeiro, no Fórum Econômico Mundial (Davos) e no Fórum Social Mundial (Porto Alegre). Decorridos nove meses de gestação, só falta uma cesariana para esse parto de montanha do Fome Zero.
Extensão - Anúncio de página inteira, em jornais e revistas, avisa: ''O Fome Zero não se limita à distribuição de cestas básicas. Bem ao contrário (sic). Seu objetivo é permitir que, em quatro anos, todos os brasileiros possam alimentar-se adequadamente, sem precisar receber doações de ninguém.'' Uau!
Alquimia - Essa multiplicação bíblica do peixe, do pão e do vinho será operada pela Reforma Agrária (ainda sem projeto) e por toda uma segunda linha de ação (''a mais importante''), a estrutural. Algo a ver, certamente, com a criação de 10 milhões de novos empregos no triênio 2004/2006. Garantido.
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