JOELMIR BETING
''O verdadeiro risco Brasil não é o do mercado financeiro. O Brasil que agora dá medo lá fora é o do agronegócio.''
Castor Lozardo, sojicultor
Acordado, finalmente
Última forma: com as colheitas de inverno na boca do forno, brandindo novos recordes no trigo e no milho (que se permite o luxo tropical de uma colheita no verão e outra no inverno), o Brasil deve fechar o ano/safra 2002/2003 ensacando 122,4 milhões de toneladas de grãos. Aumento de 26,5% sobre o recorde do ano/safra anterior.
Para variar, o deslanche da economia rural brasileira, em plena sinistrose macroeconômica do País, resulta de uma combinação poderosa: ganhos pontuais de produtividade, ganhos de termos de troca, ganhos de adubação cambial, ganhos das cotações externas e ganhos do clima favorável, a cargo de são Pedro.
Para o presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Luis Carlos Guedes Pinto, indicações preliminares apontam para um resultado ainda melhor neste ano-safra 2003/2004, que começa agora pelos tratos do plantio de verão no Centro-Sul. Não se afasta a possibilidade de uma expansão entre 7% e 10%. Nas intenções de plantio e na demanda de sementes e de fertilizantes, o impulso de banguela já está acima de 10%.
Rainha do baile, a soja não vai tirar o pé do acelerador. Ela tende a escalar de 52 milhões de toneladas, nesta safra já concluída, para 58 milhões na próxima. O chamado complexo soja está ungido pelo toque de Midas: preços mundiais 18% maiores no grão e 33% maiores no óleo, câmbio estabilizado em pavimento superior (com valorização real de 23% sobre o escoamento anterior) e exportações 74% maiores em valor, de janeiro a agosto.
Não mais que de repente, o Brasil embarca US$ 29 bilhões a partir de lavouras e de rebanhos, com a soja garantindo US$ 8,1 bilhões. Pela primeira vez, deixando os Estados Unidos na poeira, com US$ 7,2 bilhões.
Até 2010, se tanto, estaremos tirando dos americanos, não apenas o título de maior exportador, mas também o de maior produtor mundial de soja. Eles estão colhendo 78 milhões de toneladas. No limite físico da fronteira agrícola e no teto da produtividade (esta já igualada pela soja brasileira).
Washington e Bruxelas sentem calafrios não por acaso. A ordem é não abrir do protecionismo agrícola em Cancún que já passou ou em Genebra que virá. O espreguiço do gigante, acordado finalmente em seu esplêndido berço tropical quente e úmido, inspira inveja e medo nos dois lados do Atlântico Norte. Ao tempo em que aguça ganas de parceria do Japão, da China, da Índia, da Rússia...
Vai daí que o The New York Times, com a anta atrás da orelha, informa ao mundo embasbacado que o Brasil está derrubando a floresta amazônica para o plantio desordenado e insustentável de soja... não transgênica. O jornal serve-se de fontes que nada entendem de soja, de floresta, de cerrado, de estrada, de inventário.
Nos últimos 12 anos/safra, mais que dobramos a produção de grãos em geral. Colhemos mais 112%, com expansão de apenas 16% da área ocupada.
S E C O S & M O L H A D O S
Milagre - Na percepção de americanos e europeus, o Brasil verde de orgulho deve estar faturando algum milagre bíblico da multiplicação do pão. Não dá para entender lá fora como se pode avançar em quantidade e em qualidade sem crédito rural, sem seguro rural, sem subsídio fiscal, sem transporte intermodal. Ou sem prestígio político, sem respeito público, sem mercado global limpo.
Boi vivo - Que o diga nossa carne bovina, made in capim. Com ela, acabamos de ultrapassar a Austrália, os Estados Unidos, a Argentina. Tal como na soja, já somos os maiores exportadores da proteína vermelha. Com o detalhe: ainda sem acesso aos mercados protegidos do Japão, do México, do Canadá e dos Estados Unidos.
Para dentro - Eles, já com mercados internos saturados. O nosso, mercado por fazer. Temos boi que nunca viu gente num Brasil que ainda tem gente que nunca viu bife.
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