''Está mesmo comprovado: tempo é dinheiro.Paguemos, pois, nossas dívidas com tempo.''

Aparício Torelly (1895-1971), Barão de Itararé

De pneumonia simples

Redução da taxa básica de juros, a onipotente Selic. Permissão de empréstimo pessoal com desconto em folha salarial. Criação de linha de crédito especial para eletrodomésticos. Difusão do microcrédito para consumo e trabalho. Indicação solene na carta de intenção ao FMI de que já está na hora de ''relaxar a política monetária''...

De junho a setembro, em quatro cortes encavalados, a taxa básica declina de 26,50% para 20%. Ainda acima dos 19,50% de setembro de 1999. A taxa real, expurgada do IPCA, aponta para 12,7% nos próximos 12 meses. Ainda a maior do mundo. Ou nada a ver com PIB trotando acima de 2%. Está abaixo de 1%.

Nos terminais bancários da produção, o refresco da Selic é tiro de espingarda mata-gato para derrubar o hipopótamo da recessão. As taxas já baixaram, sim, desde ontem, em média, para 64,8% ao ano no capital de giro, para 69,6% no desconto de duplicata, para 65,9% no desconto de cheques, e para 96,9% no cheque especial.

Sirvam-se. Resta saber se haverá reinjeção de óleo canforado nas veias de empresas com custo bancário médio de 74% ao ano. Ou taxa real acima de 65% ao ano.

Nos terminais do consumo financiado em banco e/ou em loja, as taxas finais acabam de ser piedosamente rebaixadas para 109,8% ao ano no comércio lojista, para 188,1% no cheque especial, para 227,1% no cartão de crédito, e para 321,2% no crédito fácil das financeiras. Nestas, 12,73% ao mês. Na média do mercado de bancos e de lojas, o consumidor movido a prestação passa a encarar encargo financeiro de 154,3% ao ano.

Sintam, pois, o calibre da retomada que se deseja viabilizar na economia capinanceira do Brasil: taxas mensais pela média de 4,7% nas empresas e de 8,1% nas famílias.
Ora, sejamos espertos. Não dá para relançar o consumo, a produção, o emprego e a renda com juros ainda refestelados na face oculta da Lua. Tanto mais quando se sabe que a renda real da família, disponível para consumo, decresceu 7% nos últimos 12 meses, situando-se, hoje, 22% abaixo da renda de estréia do Real, em julho de 1994.

Na classe média, tanto pior. Movida a cheque especial e a cartão de crédito, os juros já devoram 32% do orçamento doméstico. Os impostos, outros 29%. Uma segunda família para sustentar.

Claro, qualquer arremedo de afrouxo no arrocho monetário (na categoria de mal desnecessário) tem de ser festejado com rojão de vara de quermesse paroquial. Que venha também uma nova redução do compulsório. Mas imaginar que vamos refertilizar um PIB de 3% no ano que vem, pagando juros de 74% ao ano para produzir e de 154% para consumir, bem, isso já não é mais uma análise. É uma torcida.

SECOS & MOLHADOS

Fio de gilete - Na teoria, uma economia organizada e competitiva tem de praticar no financiamento do setor produtivo a chamada taxa real de equilíbrio. Que bicho é esse? É a taxa básica real que não produz inflação nem deflação. No Brasil, ela seria hoje de 9%. Nos Estados Unidos, 2,7%. Aqui, acima da taxa de equilíbrio (12,7%). Lá, abaixo (1%). Aqui, PIB de 0,5%. Lá, 3,6%.

Só um terço - A regulamentação do crédito bancário com lastro na folha do salário desembarca entre nós com pelo menos 20 anos de atraso. Ocorre que ela deixa de fora o trabalho informal e o trabalho autônomo. Ou seja: só rebaixar o juro para um terço da população.

Fome zero - Ganho líquido imediato com a Selic de 20% só o da rolagem da dívida pública corrigida pela própria. O alívio acaba de ser estimado em R$ 6 bilhões por ano. Ou seja: numa simples penada, o Banco Central acaba de dar à luz um segundo Fome Zero.

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