JOELMIR BETING
Eu nunca tive dívida. Sempre tive crédito.
Otto Lara Resende (1922-1992), jornalista e escritor
Quem não deve não tem
Do presidente da República ao faxineiro desempregado, os brasileiros se perguntam nos travesseiros: a) por que os juros bancários trafegam na face oculta da Lua?; b) quando é que uma espaçonave de resgate trará os juros de volta ao planeta Terra?
Pois o que não falta é explicação para esse grave e velho desvio de rota da economia e da sociedade. Um arrocho monetário que, não é de hoje, transparece como o maior gargalo institucional do setor produtivo. De braços dados com o garrote tributário igualmente sem paralelo no mundo.
Com o detalhe político de fundo: o desmanche do garrote tributário exige toda uma engenharia legiscrativa que jamais logrará passar pelo mata-burro da partilha do poder fiscal entre União, Estados e municípios. Já o desmonte do arrocho monetário - boa notícia! - depende unicamente da caneta do governo, dando-se uma solene banana nanica à barganha do Congresso.
Temos 20 explicações (e nenhuma justificativa) para juros de até 65% ao ano na produção e de até 320% ao ano no consumo. Vamos a elas?
A primeira é recorrente: crédito muito curto, o mais curto do mundo (24,7% do PIB).
A segunda é decorrência: crédito caro até por ser curto. Movido a economia de escala, o banco obriga-se a ganhar mais sobre menos. Lá fora, eles ganham menos sobre cada vez mais.
A terceira vem a reboque: curto e caro, o crédito é de alto risco. O que torna o crédito ainda mais curto e ainda mais caro porque dando carona a um abusivo prêmio de risco.
Quarta: o temor do calote com alto prêmio de risco (57% do spread bancário para pessoas físicas) virou bom negócio mútuo para o caloteiro e para o banqueiro. O primeiro, porque deixa de pagar o que deve. O segundo, porque arranca de quem paga em dia o triplo do que perde com quem não lhe paga. Acredite quem puder: no Brasil, o calote dá lucro.
Quinta: o crédito é curto porque o governo endividado enxuga perto de 70% da poupança financeira bruta. Sexta: na rolagem dessa dívida rosca sem-fim, o Tesouro obriga-se a oferecer aos investidores patriotas as taxas mais sedutoras, digamos assim. Essa amarração pela base ajuda a entender a aberração pela ponta.
Sétima: o crédito para produção e consumo também é curto e caro porque o mesmo governo enxuga 40% (já chegou a 75%) dos depósitos bancários à vista (e até mesmo a prazo).
Oitava: o governo direciona ou vincula outros ativos dos bancos, com taxas monitoradas. Também por aí, os bancos cuidam de ganhar mais sobre menos.
Nona: a legislação é porosa e leniente para a execução de garantias bancárias. Na falência, enterra-se a empresa e salva-se o empresário. Lá fora é o contrário. Décima: o governo come-quieto seqüestra 29% do spread bancário total a título de cunha fiscal. O Fisco é o maior sócio da usura nacional.
Secos & Molhados
Tem mais
Explicação 11: a autoridade monetária ainda pensa que só recessão (arrocho) controla a inflação. Explicação 12: as empresas sobrevivem em regime de desbancarização do capital. Explicação 13: as famílias apelam para a desbancarização do crediário de loja (brandindo 53 milhões de cartões private label). Explicação 14: as empresas não têm a opção do sócio no raquítico mercado de capitais.
Ou ainda
Explicação 15: os bancos estatais cobram tanto quanto os bancos privados. Explicação 16: também os bancos estrangeiros não agridem os bancos brasileiros. Explicação 17: nossos bancos têm elevado custo por agência (e excesso de agências). Explicação 18: além dos juros, a tarifação dos serviços bancários é pesada.
Vai longe
Explicação 18: 97% dos brasileiros são analfabetos financeiros (Anefac). Explicação 19: aceita-se qualquer taxa desde que a prestação, pelo prazo, caiba no orçamento mensal. Explicação 20: vamos de cultura do eu consumo; logo, existo, servida pelo lance do quem não deve não tem.





