''Se soltarem a economia brasileira da jaula do arrocho bancário, a anta cuidará de virar um tigre do tamanho de um elefante.''

José Maria de Jesus, taxidermista inadimplente

Os desbancarizados

Sem mistério. Se o crédito bancário é muito curto e muito caro, o contrato só pode ser de alto risco mútuo. Se o contrato é de alto risco, transporta um prêmio de risco que torna o crédito mais curto e mais caro. De tal sorte (ou azar), que já não é mais o crédito curto e caro que explica a inadimplência. Agora, é a inadimplência que justifica o crédito caro e curto. Sim, a febre virou causa da infecção.

Nada de surrealismo. É da lógica do regime financeiro parido há duas décadas pelo monetarismo enrustido. Até o FMI já deixou escapar que o Brasil anda pecando por overdose do arrocho, na categoria do mal desnecessário.

Resultado: a economia asfixiada e a sociedade exaurida não se defendem - apenas se vingam. E a vingança, que começa pela inadimplência, nome de doença, passa a desfilar um rótulo não menos esdrúxulo: desbancarização. Ou seja: empresas e famílias tratam de financiar-se do lado de fora dos bancos. Processo tortuoso que explica o encalhe do crédito bancário curto.

Com a palavra, pesquisa da FGV contratada pela Fiesp. Tem-se com ela o inventário da estrutura de financiamento das empresas brasileiras de todos os tamanhos, mercados e endereços. Sem surpresa: o crédito bancário responde por apenas 26% a 28% do cardápio de capital. Os recursos próprios entram com 53% a 58% e o chamado crédito mercantil (empresas financiando-se mutuamente em cada cadeia produtiva), oscilando de 12% a 16%. Com presença meramente residual, nas grandes empresas, do capital do sócio no balcão e/ou em bolsa.

São índices que dão a justa medida do cavernoso processo de desbancarização da economia brasileira. Algum distraído poderá celebrar esses índices com ''baixo coeficiente de endividamento do setor produtivo''. Não. Trata-se, como observa a economista Clarice Messer, da Fiesp, de um ridículo poder de alavancagem de capital do setor produtivo nacional pelos padrões internacionais. O que condena as empresas a não crescer como já poderiam ter crescido. O limite delas é o capital e não o mercado. Do que resulta todo um Brasil andando de lado, cada vez mais desbancarizado.

Desbancarização que agora se alastra pela ponta do consumo movido a crediário de loja. Nas lojas de departamento e nas redes de supermercados, o carnê velho de guerra e o cartão de bandeira alheia acabam de ser aposentados pelo charmoso cartão ''private label''. Com juros menores e prazos maiores. Nos juros, taxas de 1,9% a 6,5% ao mês. Não raro, de três a cinco vezes sem juros. Nos cartões de crédito e de débito ligados a bancos, a coisa vai de 9,1% a 9,7%, na cola do cheque especial (média de 9,3%).

Nada menos de 53 milhões de consumidores ''fidelizados'' já estão brandindo o cartão de loja no caixa da própria. É a desbancarização solene também do consumo financiado.

SECOS & MOLHADOS

Negou fogo - A redução fatiada da Selic à redução piedosa do compulsório ainda não desembarcam no crédito para consumo. Houve algum refresco no crédito para produção. No consumo, bem ao contrário, as taxas até subiram um pouco mais de julho para agosto. Fonte: pesquisa mensal da Anefac.

Para o alto - A pesquisa revela que nas linhas do crédito pessoal os juros subiram de 6,22% para 6,29% nos bancos e de 12,82% para 12,87% nas financeiras. Sim, 12,87% ao mês. Com o grifo do presidente Miguel de Oliveira: as taxas de agosto (com Selic de 22%) ficaram acima das taxas de março (com Selic de 26,50%).

Entulhos - São dados para o grupo do Copom pensar esta noite na cama. Eles ensaiam rebaixar mais uma vez a Selic na tarde de amanhã. Está difícil remover os entulhos do arrocho.

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