JOELMIR BETING
''O bom negócio só é bom negócio quando os dois lados ganham. Quando só um dos lados leva vantagem, o bom negócio acaba.''
Benjamin Franklin (1706-1790), estadista americano
Torre de Babel - 4
Costurado e liderado pelo Brasil de Lula, o bloco organizado dos 22 países, que respondem por 19% da produção mundial de alimentos e por 27% das exportações globais do setor, conseguiu rasgar a agenda agrícola da OMC em Cancún. Uma agenda timbrada pelo ''diktat'' do recente arreglo Estados Unidos-União Européia.
É do jogo bruto do esperanto diplomático da desconversa que sabota, há meio século, a construção de relações comerciais em bases justas dentro deste nosso planeta desfalcado de bom senso.
Foi só o Brasil juntar em julho a ''task-force'' dos prejudicados para a Batalha de Cancún - trazendo para dentro dela o peso político-estratégico de países continentais e populosos como China, Índia, Rússia, Indonésia e Austrália - que Washington e Bruxelas cuidaram de engavetar seus velhos atritos de política agrícola e praticamente rascunharam, em 13 de agosto, a proposta que viria a ser, na semana seguinte, oficializada pela própria OMC.
Que proposta? Deixar tudo como está para ver como é que não fica. Tradução: americanos e europeus, escoltados pelos japoneses, topam rebaixar as muralhas do protecionismo agrícola, mas sem comprometer-se com qualquer formato e qualquer conteúdo para essa benemerência sem data marcada.
Em troca de tamanha abertura política, o restante do mundo cuidaria de acenar, na mesma Cancún, com concessões na demanda preferencial dos ricos: liberação pactuada e progressiva de todos os mercados nacionais para investimentos, bancos, seguros, bolsas, serviços, patentes, compras governamentais...
Chanceler brasileiro, o ministro Celso Amorim assim resumiu a exposição de motivos para a derrubada, logo na primeira jornada, dessa proposta ofídica dos detentores de dois terços da riqueza global: 1) não se pode fazer uma OMC exclusiva para a agricultura, que prosseguiria sem abertura, e uma outra OMC sob medida para a liberação geral dos mercados sob inarredável hegemonia dos países opulentos; 2) não se deve perder o bonde que passa, o da negociação de um novo tratado multilateral de comércio, quando se está no brejo de um modelo indecoroso e manipulado.
Deu no The New York Times, de ontem, em editorial: 1) o protecionismo agrícola dos 31 países mais ricos totaliza US$ 1 bilhão por dia; 2) as potências comerciais, nadando na crista do excedente de capitais, não podem continuar ditando as regras do mercado mundial em causa própria; 3) os outros 112 parceiros da OMC, mais os 57 países ainda do lado de fora dela, podem produzir alimentos competitivos na terra, mas não no cofre; 4) bastaria o desmonte fatiado do protecionismo agrícola nos dois lados do Atlântico Norte para aumentar a renda dos países afluentes em US$ 1,5 trilhão em dez anos. Bingo!
SECOS & MOLHADOS
Estaca zero - Ocorre que não basta rasgar a pauta dos ricos. É preciso fazer passar a agenda dos pobres. No caso, agenda tripulada pelos emergentes com crachá de ''exportadores agrícolas líquidos'', no jargão de Washington. Pois o outro lado da mesa quadrada quer estabelecer tratamento discriminatório para os ''exportadores líquidos'', punindo a eficiência e a afluência do bloco.
Guarda-chuva - Não é de hoje que esse tratamento discriminatório deita e rola nos Estados Unidos e na União Européia. Estão sob o guarda-chuva de favores e de afagos os não-desenvolvidos que fazem o jogo incondicional da ''pax americana'' ou vestem a camisa de ex-colônias do velho expansionismo europeu.
Vassalagem - Resultado: o improvisado G-22 tripulado pelo Brasil não conseguiu chegar a G-112. Ao contrário, o bloco da pobreza está politicamente rachado, com maioria votando, como sempre, pelo ventríloquo dos ricos.
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