JOELMIR BETING
''O verdadeiro diplomata é o profissional que se obriga a pensar duas vezes antes de evitar dizer coisa alguma.''
Groucho Marx (1890-1977), humorista americano
Torre de Babel - 3
De Franz Fischler, comissário de Agricultura da União Européia:
''Os brasileiros propõem a criação, a partir de Cancún, de dois tipos de OMC: a dos pobres e a dos ricos. A OMC dos pobres, com carta de deveres para os ricos. A OMC dos ricos, com carta de direitos para os pobres.''
De Celso Amorim, ministro de Relações Exteriores: ''Os europeus, sim, é que estão pretendendo criar dois tipos de OMC: a da agricultura e a da agenda geral. A primeira, sem abertura. A segunda, como se diz no Brasil, a do liberou geral para fábricas, bancos, seguros, patentes, serviços, capitais, compras governamentais...
De Franz Fischler: ''A articulação improvisada do Grupo dos 20, liderada pelo Brasil, é coisa do outro mundo. Eles se negam a dar validade à agenda oficial da OMC, que tem o endosso do restante do mundo. Eles precisam voltar correndo ao planeta Terra.''
De Celso Amorim: ''O comissário europeu é austríaco e vive nas nuvens dos Alpes frios. Ele precisa descer ao fundo dos vales do comércio internacional, até aqui monitorado de modo indecoroso pelos países ricos. Ao que parece, agora com aval da própria OMC. A agenda agrícola oficial para Cancún foi escrita a quatro mãos por Washington e Bruxelas.''
Diplomacia tem hora e lugar. Tamanho não é argumento. União Européia e Estados Unidos, escoltados pelo Japão, discreto campeão do protecionismo agrícola, totalizam um PIB de US$ 26,3 trilhões, dólar ajustado para março de 2003 (Unctad). Ou cerca de dois terços do PIB global. Ou perto de metade do comércio mundial. No setor agrícola, com 16,4% do PIB verde do mundo, o megabloco responde por exatamente um terço das importações e por 38% das exportações totais. No superávit.
Já ampliado para Grupo dos 21 (o Egito aderiu no desembarque em Cancún), o Brasil tem o comando político de um bloco que, mesmo dando carona a países continentais como China, Índia, Rússia, Indonésia e Austrália, responde por nada além de 13% do PIB global. Ou por 19% do PIB agrícola. Mas, no comércio agrícola, o bloco da dissidência no ventre da OMC entra com 27% das exportações e 17% das importações. No superávit.
Estudo do Banco Mundial adianta que uma redução no protecionismo agrícola dos ricos (da ordem de US$ 1 bilhão por dia) poderia resgatar da miséria, em dez anos, cerca de 140 milhões de terráqueos que vegetam nos países não-desenvolvidos e nos bolsões de exclusão dos países desigualmente desenvolvidos, agora com crachá de emergentes.
E desde quando o empobrecimento dos países pobres realmente interessa ao enriquecimento dos países ricos? Hoje, 11 de setembro, é uma boa data para essa reflexão de fundo.
SECOS & MOLHADOS
Come-quieto - Reparo ofídico de um relatório da OCDE: a tranche dos primeiros 10% dos maiores produtores americanos e europeus, maioria com terra titulada por grandes conglomerados, entra no esquema com 37% dos produtos e embolsa 71% dos subsídios. Uau!
Pela cultura - Na Europa, a engorda de subsídios para uma fartura já encalhada ganha o reforço político de um novo discurso oblíquo: os impostos dos contribuintes devem continuar bancando os subsídios dos agricultores, não só pela segurança alimentar dos primeiros ou pela resistência econômica dos segundos - também pela preservação do patrimônio cultural da ''vida no campo''.
Cá entre nós - Pois não é que essa onda já bateu nas praias de nossa economia rural? O suplemento Agrícola do Estado, de ontem, dá em vasta matéria de capa o advento do turismo do agronegócio no interior de São Paulo. Programão de fim de semana.
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