JOELMIR BETING
''De onde menos se espera, é que não sai nada mesmo.'' Aparício Torelly (1895-1971), Barão de Itararé
Torre de babel - 2
De Celso Amorim, ministro de Relações Exteriores: ''Chega a ser indecoroso que, após mais de meio século de regras multilaterais para desenvolver um comércio internacional disciplinado e justo, o mercado de produtos agrícolas, de tamanha relevância para os países em desenvolvimento e os ainda não-desenvolvidos, permaneça protegido da concorrência nos países desenvolvidos por subsídios, exceções, barreiras e políticas discriminatórias de toda ordem.''
De James Wolfensohn, presidente do Banco Mundial: ''Um acordo pró-pobres, a partir desta conferencia ministerial da Organização Mundial de Comércio (OMC), em Cancún, com redução das barreiras nos países ricos poderia aumentar o intercâmbio global de mercadorias e serviços em até US$ 520 bilhões por ano. Isso retiraria um adicional de 140 milhões de pessoas da miséria nos países pobres. O que estamos esperando?''
De Amartya Sen, Prêmio Nobel de Economia: ''O protecionismo comercial dos países desenvolvidos, a dano dos países afluentes e, tanto mais, dos países excluídos, totaliza algo mais que todo o PIB conjunto da África. É o que se observa na soma dos incentivos e dos defensivos para agricultura, indústria e mercados de serviços. Algo não condizente com a retórica do mais comércio, menos ajuda. Bem ao contrário, as perdas de comércio exterior dos países retardatários são oito vezes maiores que o total de transferências dos programas de ajuda humanitária bilaterais e multilaterais. Restaria refletir se os países desenvolvidos não estariam igualmente prejudicados por essa antiga e enorme insensibilidade.''
De Rubens Ricupero, secretário-geral da Conferência das Nações Unidas Sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad): ''Um arreglo de proteção mútua de seus abusos e de seus pecados acaba de ser costurado por americanos e europeus para inviabilizar avanços de livre comércio (agrícola) a partir de Cancún. Pois nenhum acordo é preferível a um mau acordo. Os países agrícolas competitivos, que se juntaram no Grupo dos 20 por iniciativa do Brasil, querem negociar. Por ser até que alguns aliados do bloco acabe fugindo da raia sob pressão direta sem disfarce de Washington e/ou de Bruxelas. O certo é que se os ricos permanecerem intransigentes, o melhor é dizer para a agenda toda e esperar por uma nova chance. Em 2004.
Ainda de Rubens Ricupero, que nos fala em tom pessoal e não em nome da Unctad: ''Dizer não a parceiros ranzinzas não é desaforo algum. Aqui mesmo em Genebra (sede da Unctad), as casas fazem a seguinte advertência sobre o cachorro: ''Cet animal est très méchant. Quand on l'attaque, il se défend.'' Tradução livre: ''Este animal é malvado. Defende-se quando atacado.''
SECOS & MOLHADOS
Late e morde - O cachorro bravo de Cancún é o Grupo dos 20, idealizado pelo ministro brasileiro da Agricultura, Roberto Rodrigues: que apresenta o latido: ''Não podemos aceitar a agenda oficial da OMC. O capítulo do agronegócio foi escrito a quatro mãos por Washington e Bruxelas.'' E acena com a mordida: ''Sem avanço na questão agrícola, não faremos acordo sobre qualquer outra coisa.''
Pauta cheia - Americanos e europeus querem manter a questão agrícola no impasse que lhes interessa. Compete ao Grupo dos 20, em retaliação, ignorar toda a agenda preferencial deles: regras para indústria, para bancos, seguros, capitais, investimentos, patentes, compras governamentais e salvaguardas ambientais.
Apoio total - Nas gerais e nas arquibancadas da Batalha de Cancún, nada menos de 1.234 ONGs do mundo inteiro torcem pelo Grupo dos 20. Entre outras, a poderosa Oxfam, sediada em Londres. Ela patrocina suculentos estudos sobre protecionismo comercial, desenvolvimento sustentável e biodiversidade.
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