''Americanos e europeus levam para Cancún o pacto da acomodação dos respectivos pecados e seus mesquinhos interesses de comércio.''

Rubens Ricúpero, secretário-geral da Unctad/ONU

Torre de Babel

Confraria de 146 países que participam das trocas internacionais de produtos e serviços em geral, a Organização Mundial de Comércio (OMC) desembarca hoje no balneário mexicano de Cancún para tentar celebrar, até domingo, um acordo geral sobre matéria transcendental: a costura de um tratado global de comércio tecnicamente viável, economicamente forte e politicamente justo.

Negativo. Ricos de um lado e afluentes de outro não pretendem desistir da tentativa de fazer essa omelete com os ovos alheios. A própria OMC está sob suspeição grave: a de simplesmente endossar, com casca e tudo, a agenda desenhada a quatro mãos, em 13 de agosto, pelos Estados Unidos e pela União Européia.

O novo arreglo americano-europeu é assim resumido pelo diplomata brasileiro Rubens Ricúpero: ''Uma vez mais, o vício parece apoiar-se no braço do crime. Os europeus fecham os olhos aos escandalosos subsídios americanos à produção doméstica e, em paga, os ianques deixam de pressioná-los a abrir o respectivo mercado às importações agrícolas. Eles se juntam alegremente para tentar legalizar seus abusos mútuos sob o guarda-chuva da OMC.''

Abusos do tamanho de US$ 368 bilhões em 2003, a dólar médio de maio. Soma telúrica de subsídios para a produção interna com incentivos para as vendas externas. No primeiro caso, vale até mesmo pagar para não plantar em ciclos de encalhes da fartura. No segundo, vale subsidiar exportações de excedentes a título de ''ajuda alimentar'' a países tangidos pela guerra e pela fome.

Cerca de 12% do total empenhado pelos governos ricos estão ressarcidos pelos produtores dos países retardatários - devidamente confiscados nos portos do Atlântico Norte por barreiras tarifárias e não-tarifárias. Um ''pedágio'' pelo qual o Brasil desembolsa (ou deixa de embolsar) perto de US$ 4,5 bilhões este ano.

O Brasil acaba de ser carimbado pelo eixo Washington-Bruxelas como ''exportador líquido de produtos agrícolas''. Estigma digno da execração pública nos dois lados do Atlântico Norte, ironiza Rubens Ricúpero. No que estamos na companhia de Argentina, Chile, Austrália, Colômbia, México, Índia, Paquistão, Tailândia... Quem nos alimentos tem a ousadia de exportar mais do que importa deve ser punido por cláusulas discriminatórias de comércio global. Que tal?

Os ''exportadores líquidos'' vão à forra. Eles desembarcam em Cancún com crachá de Grupo dos 20 para rasgar a agenda da OMC ditada por americanos e europeus. E fecham questão: ou se abre o mercado agrícola não mais subsidiado (dos ricos) ou não haverá avanço algum sobre a pauta preferencial do outro lado da mesa: produtos não-agrícolas, serviços em geral, compras governamentais, fluxos de capital, propriedade intelectual (patentes), cláusulas sociais, salvaguardas ambientais. Uf!

SECOS & MOLHADOS

Peso pesado - Estados Unidos e União Européia (fora os respectivos aliados em plenário da OMC) respondem por 58% do PIB mundial. Ou por 64% do comércio global. Na economia rural, de onde sacaram a seiva da respectiva opulência, entram com 14% do PIB agrícola global.

Peso médio - O Grupo dos 20, alinhavado este ano, é liderado por Brasil, China, Índia, Austrália, África do Sul e Argentina. O bloco realiza 12% do PIB mundial e 19% do PIB agrícola global. Nas exportações de alimentos, a fatia é de 26%. Nas importações, 17%.

Peso morto - O chanceler Celso Amorim, chefe da delegação brasileira, avisa que Cancún é tiro de partida e não fita de chegada. O cardápio na mesa é um peso morto. Serve apenas para definir o que não deve ser negociado. Há que se apostar em uma Cancún 2 para março. De preferência, em Genebra, onde mora a OMC.

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