JOELMIR BETING
''Nem todas as empresas de capital aberto são globais, mas todas as empresas globais são de capital aberto.''
Daniel Kahneman, Prêmio Nobel de Economia
Onde mora a força
Para as empresas abertas, com ações negociadas no balcão ou em bolsa, os mercados para seus produtos e serviços, se realmente competitivos, não têm limites. Para as empresas fechadas, ainda que competitivas, o limite do mercado acaba sendo exatamente o limite do capital.
Eis a raiz e a matriz da opulência capitalista nos dois lados do Atlântico Norte. Ou na sentença de Peter Drucker: a invenção da sociedade anônima de capital aberto, com participação do público investidor (pessoas, famílias e empresas) no patrimônio e nos resultados da empresa, tem feito mais pela energia do desenvolvimento econômico sustentável, com inclusão social, do que toda a literatura econômica produzida nos últimos 250 anos.
Movida também pelo capital do sócio e não apenas pelo dinheiro do credor, a empresa aberta deixa de ser refém do banco, tem poder de barganha com o mesmo banco e sente-se segura tanto na reaplicação do lucro como na redistribuição do prejuízo. O crédito em banco é um exigível com data marcada. No lucro ou no prejuízo. Ou antes mesmo da conclusão e operação do projeto financiado.
O capital em bolsa é o recurso de terceiros mais barato de toda a estrutura de poupança financeira do país. A empresa assim capitalizada só remunera o sócio investidor quando apura o lucro - se tiver lucro. Quase sempre, lucro reaplicado pelo próprio investidor na empresa que acaba de lhe dar o lucro compartilhado, vulgo dividendo.
Economia nacional movida a sócios e não apenas a credores se movimenta com o menor custo possível do capital de terceiros. Capital de risco, por vocação e natureza. O risco assumido pelo investidor de participar de eventuais resultados negativos da empresa. Ou o risco ainda maior de perdas de cotação das ações nos descaminhos de um mercado de bolsa especulativo por definição e necessidade - independentemente do desempenho da empresa.
Desempenho vigiado e cobrado pela assembléia-geral dos acionistas por sobre demonstrativos sancionados ou questionados por auditores independentes. A gestão tem de ser profissional.
Vai daí que a história econômica dos povos, expurgada de suas viseiras ideológicas, poderia ser divida em apenas dois capítulos: 1) a dos países que dão certo, porque movidos a mercado de capitais em bolsa; 2) a dos países que não dão certo, porque movidos, quando movidos, a dinheiro de aluguel em banco. Não por coincidência, os do primeiro grupo, sobre ser economicamente fortes, são politicamente abertos e socialmente sólidos.
Sintam o baque do Brasil cor de anil. Aqui, o capital do público investidor no patrimônio do sistema produtivo mal tem passado de 3% da poupança financeira bruta. Ou como deplorava Roberto Campos nos idos de 70: ''Não somos um Brasil capitalista e muito menos um Brasil socialista. Nada mais somos que um Brasil capinanceiro.''
SECOS & MOLHADOS
Ainda deitado - Sim, capinanceiro. De tal sorte ou azar, que estamos não é de hoje atolados na estagnação econômica e na desolação social porque pagando juros de até 65% ao ano para produzir e de até 330% ao ano para consumir. Não temos a opção do capital do sócio para a dívida no banco. O resto é crescimento do espetáculo. Do triste espetáculo do gigante eternamente deitado.
Para todos - Agentes da economia mais poderosa e competitiva da história, nada menos de 72 mil empresas americanas capitalizam-se com o sócio anônimo vestido de fundo mútuo, clube de investimento, fundo de pensão. Capitalismo popular que faz o pé-de-meia de metade da população. De sobremesa, vacina o sistema contra qualquer laivo de usura do crédito bancário.
Faz tempo - A primeira empresa global foi exatamente a primeira que abriu o capital: a Singer da máquina de costura na primeira metade do século 18. Secundada pela Colt da garrucha do faroeste. Que ainda hoje, no Telecine, exige Gary Cooper dando 19 tiros em 19 índios com apenas 5 balas no tambor.
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