JOELMIR BETING
''São quatro os ministros que seguram o pálio da procissão.Todos os demais apenas rezam e cantam.''
Tancredo Neves (1910-1985), citado por Elio Gaspari
Contra o relógio
O presidente Lula recebe hoje os titulares do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social e remarca para daqui a 45 dias a escalação de sua primeira reforma ministerial. Se o presidente vai bem no alto do trio elétrico da popularidade pessoal, o governo nem tanto e o partido muito menos.
Certa feita, em entrevista ao Le Monde, jornal que tudo sabe a respeito do mundo todo, o primeiro-ministro espanhol Felipe Gonzáles, o reformista, entregou a receita do pudim: ''Quando as mudanças não dão certo ou demoram para engrenar, recomenda-se a convocação de um pacto social, a partir de uma reforma ministerial. Com isso, ganha-se mais um ano de paciência coletiva e afasta-se a cobrança de resultados miraculosos imaginados pela ansiedade geral.''
Bingo! Os 86 conselheiros do governo Lula, recrutados a dedo na sociedade civil, desfilam crachá de pacto social em gestação. E a troca de ministros reinjetará golfadas de esperança na ninguenzada ainda não desalentada. Autêntica troca de turbinas em pleno vôo do velho Boeing 707. Serve para tranquilizar os passageiros a bordo.
Na reunião de hoje, os conselheiros vão depositar na reflexão da autoridade palaciana nada menos de 17 conselhos de ''correção de rumo'' da política de austeridade palocciana. A equipe econômica já torceu o nariz e o núcleo político do governo avisa que ainda não leu, mas já não gostou.
O número dois José Dirceu sacou o diploma de economista e reproduziu o acadêmico Pedro Malan: ''Estabilidade monetária e austeridade orçamentária são os fatores condicionantes. A retomada do crescimento econômico é o fator condicionado.''
Pelo sim, pelo não, o ministro Tarso Genro cuidou de soletrar como presidente do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social: ''Que aconselhamento de governo seria o nosso onde toda a sociedade estivesse discutindo câmbio volátil, juros insanos e empregos perdidos e ninguém deste Conselho falasse coisa alguma? Certamente, seria um Conselho de Idiotas.''
Ocorre que tem sido menos difícil usinar consenso no Conselho - integrado por interesses naturalmente conflitantes da ''guerra de apropriação da renda'' em que se estiola a civilização humana - do que concretar pensamento único e sólido no governo e no partido. Pois o Conselho, instalado há cinco meses, escreve 17 medidas para a retomada econômica ainda este ano. O governo Lula ainda não deu à luz em nove meses um projeto nacional. O partido, aos 30 anos de dedo em riste, ainda não tem plano de vôo na cabine de comando do nosso atribulado Boeing 707.
Tem-se que o PT nasceu e cresceu para ser, eternamente, o maior e melhor partido de oposição do Brasil e do mundo. Tanto assim, que funciona até aqui como única oposição holística ao próprio governo Lula. Nem o Le Monde explica.
SECOS & MOLHADOS
Intenções - O Plano Plurianual de Investimentos (PPA), edição 2004/2007, não passa de um preceito constitucional tipo carta de intenção. Plano de metas sem garantia de meios é moleza. Juntem três economistas neste sábado à tarde e eles terão um outro PPA, melhor ainda, no churrasco do domingo.
Propostas - Como dar conselhos não paga imposto (por enquanto), os conselheiros do governo Lula fazem o esboço da Felicidade Nacional Bruta: rebaixar juros, aliviar impostos, arejar despesas, relançar obras, reindexar salários. Haveria a rebrota em cascata do consumo, da produção, do emprego, da renda, da poupança, do investimento, da esperança... Fácil.
Penâltis - Faxineiro desempregado, José Maria de Jesus faz a emenda: ''Para virar o jogo perdido basta cavar dois pênaltis. No primeiro, fim de overdose do garrote tributário. No segundo, fim da overdose do arrocho monetário. No primeiro, cartão vermelho para os congressistas. No segundo, cartão vermelho para os economistas.''
www.joelmirbeting.com.br





