''Quando o povo realmente acorda, as expectativas fraudadas são mais incendiárias que as necessidades nunca atendidas.''

Georges Benjamin Clemenceau (1841-1929), político francês

Outro ano perdido
A restabilização da carestia ainda não rima com reaceleração da economia. Bem ao contrário. O impulso de banguela para este último terço do ano aponta para um mercado interno de consumo ainda encruado. Por uma simples e triste razão: perda acumulada nos últimos 12 meses de 16% no poder de compra da população. A estimativa é do IBGE.

Entenda-se por perda de poder de compra a conjugação de: 1) salário real defasado; 2) trabalho informal degradado; 3) desemprego ainda em alta; 4) retração de consumo por desalento; 5) protelação de consumo por insegurança econômica; 6) dilatação da cunha fiscal na produção e no consumo; 7) aumento da sobrecarga tarifária nos serviços públicos; 8) elevação dos juros no crediário de loja e no ''capital de giro'' da classe média (cheque especial e cartão de crédito).

Em se considerando que o consumo das famílias movimenta diretamente perto de 60% do PIB verde-amarelo de anemia, o atual transplante dos negócios em geral da estagnação para a recessão, processo iniciado no primeiro semestre (queda de 1,6%), não mais será revertido em 2003 - ainda que venha a ser contido.

Para nove em cada dez cenaristas, vamos cavalgar um PIB gregoriano de 0,5%. Contra 1,5% em 2002 (tempo de terrorismo eleitoral) e abaixo até mesmo do 0,7% de 2001 (tempo de catastrofismo energético). Agronegócio crescendo 5,6% no ano e exportação embarcando mais 22% aliviam a dor mas não removem o tumor. Queda real de 20,7% no dólar (Ptax), desde janeiro, acalma o IGP, mas não atiça o PIB.

Técnicos do Ipea fazem a seguinte simulação: para fechar o ano com crescimento de apenas 0,5%, o PIB vai ter de crescer 2% neste terceiro trimestre e mais 2% no último. Para chegar a 1% no ano, a reação teria de ser de 3,7% no último trimestre, se emplacada a virada de 2% neste terceiro. Pelo cheiro da brilhantina de julho e agosto, o espetáculo de crescimento teria de começar no próximo domingo, 7 de setembro, na raça e no grito do Ipiranga.

No mais, está na moda discutir o glossário da anorexia econômica do atleta tropical. Estamos ou não estamos em recessão?

Os economistas Roberto Luis Ramos (da Cândido Mendes) e Francisco Pessoa Faria (da LCA consultoria) escrevem na Folha de S.Paulo: ''Se chegamos a ponto de nos perguntarmos se estamos ou não em recessão, é porque algo deve ser observado mais atentamente na economia, independentemente da contabilidade retroativa do PIB.'' Ou malgrado afirmações ministeriais em contrário

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