JOELMIR BETING
''No arrocho monetário, o governo atirou no dragão e acertou no São Jorge - que caiu feio do cavalo.''
José Maria de Jesus, enfermeiro desempregado
Um viva à recessão
Na defesa dogmática do arrocho monetário como se já não bastasse o garrote tributário acadêmicos e burocratas lavam as mãos feito Pilatos no credo: está provado; só recessão é capaz de controlar inflação. Viva, pois, a recessão!
E assim sendo, é perfeitamente razoável e salutar que a queda do IPCA seja creditada, exclusivamente, a uma overdose internacional do purgante recessivo aviado pelo crédito bancário mais curto e mais caro do mundo. Para os monetaristas monásticos, a recessão consumada no 2.º trimestre do ano, com sobras para este 3.º, deve ser festejada em praça pública e não injustamente apedrejada nos lares e nos bares da perplexidade nacional.
De tal sorte, que a ata do Copom avisa que ''o pior já passou'', que valeu a pena colocar a economia em marcha à ré. Ou que não havia outro jeito de debelar a fogueira da inflação (de custos) se não pelo espancamento da demanda, da produção, do emprego e da renda. Em 12 meses, queda de 16,4% na renda familiar da ninguenzada (IBGE).
Sinal vermelho emitido pela ponta do consumo corrente na direção da base do investimento produtivo. No conceito da formação bruta de capital fixo (construção civil e compras de máquinas e equipamentos), a queda no 2.º trimestre sobre a pasmaceira do primeiro foi de 6,4%. Teme-se que, no ano, esse indicador não passe de 17% do PIB. O menor de todos os tempos.
Ora, desde quando fazer recessão por decreto (o da caneta da autoridade monetária) constitui solução inteligente para solavancos da carestia? Tanto mais, no curso dos últimos 14 meses, com a inflação brasileira realimentada, não por farra de consumo, mas pelo terrorismo cambial dos preços dolarizados pelo mercado e dos preços administrados pelo governo. Uns e outros fora do alcance da anorexia financeira que há duas décadas estiola a economia brasileira.
Os preços livres, negociados no balcão, passaram a responder por apenas um terço do núcleo da inflação. Mesmo com peso de dois terços na ponderação oficial do índice. São preços negociados, travados pela competição, modernização, pela informação, pela desindexação. E não pela Selic. E não pela recessão.
Em 2000, por exemplo, Armínio Fraga afrouxou o arrocho (pós-ajuste cambial de mercado) e o PIB cresceu de 0,7% para 4,4%. Pela teoria de araque que nos asfixia, a inflação deve ter escapulido da jaula de um dígito, certo? Negativo. O dileto IPCA, piedosamente, baixou a crista de 9% para 6%.
E tome o suspiro do prof. Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia, desfiando a tese do mal desnecessário: ''O Brasil precisa reinventar o crédito bancário para investimento, produção e consumo. O arrocho aqui praticado não tem similar em países organizados e competitivos. No combate à inflação, está faltando imaginação à política monetária.'' Bingo!
SECOS & MOLHADOS
Nome da rosa - O triste é a discussão travada desde quinta-feira sobre o sexo do anjo da recessão. O governo comemora: afinal, no primeiro semestre, o PIB cresceu 0,3%. Isso não é recessão. Uf! Ainda bem que ficou só no susto. E tudo indica que vamos fechar o primeiro ano do espetáculo de crescimento com PIB de 0,5%.
Hiato negro - Economistas outros preferem avaliar o desempenho da economia em relação a seu potencial de crescimento efetivo (pela teoria do hiato de produto). Por esse prisma, o Brasil tem potencial para crescer 7% ao ano com inflação gregoriana de um dígito. Algo como dobrar o PIB a cada dez anos.
Tigre ou anta? - A tigrada asiática voltou a crescer acima de 7% com inflação abaixo de 5% (contem pra dona Selic). O Brasil é um tigre mais poderoso, porém enjaulado no circo do monetarismo anacrônico e importado. Tigre na jaula não passa de anta.
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