''Como no verso de Drummond, existem pedras nesse caminho. Um crescimento sustentável reclama a remoção dessas pedras.''

Henrique Meirelles, presidente do Banco Central

No fundo do poço

Na reavaliação do mercado financeiro, posseiro da informação econômica no Brasil, a economia brasileira vai crescer nada além de 1,4% em 2003. Ainda assim, com alguma recuperação neste segundo semestre - para não dizer, no quarto trimestre. Porque a primeira metade do ano já deu com a cara e a coragem no brejo.

Reestimativas do IBGE, do IPEA e da FGV apontam para os primeiros sete meses do ano um PIB anualizado abaixo de 1%. Se fechar 2003 na projeção de 1,4%, estaremos diante do famigerado crescimento zero do produto nacional por habitante. A população brasileira ainda cresce pela toada de 1,4% ao ano.

Há toda uma pedreira de magma vulcânico no caminho da retomada da economia (sem concessão no front da carestia). Os cinco lados dessa pedreira estão assim mapeados pelo professor Delfim Netto: 1) sistema tributário economicamente suicida e socialmente perverso; 2) custo proibitivo do capital do credor; 3) regime desmantelado do capital do sócio; 4) contratos jurídicos porosos e gasosos; 5) estímulos ostensivos à sonegação, ao contrabando, à falsificação, à pirataria, à informalização.

Uau! Dá para tomar uma Selic antes? Bem, o mercado financeiro, ouvido pelo Banco Central na sexta-feira, aposta em taxa básica real de dois dígitos também para 2004. Para um IPCA gregoriano recalibrado para 6,5% (versus 9,6% aqui em 2003), há quem aposte em Selic de 17% na média do ano que vem. Ainda no arrocho. Ela fecharia este ano em 19%.

Gradualismo é apelido. Se o Copom trocou a inflação passada pela inflação futura na recalibragem melindrosa da Selic (que corrige 39% da dívida pública de 55% do PIB), vale recapitular os dados hoje jogados nas mesas do mercado financeiro. Nos últimos 12 meses, até julho, o IPCA acumula 15,4%. Para os próximos 12 meses, a contar de setembro, está projetado para 6,3%, já na banda da meta inflacionária 5,5% para todo o ano que vem.

Salvo acidentes de percurso em contrário, nacionais ou importados, não há expectativa de nova bolha cambial pela proa da caravela do IPCA (ou do IPA no ventre do IGP). Bem ao contrário. Bancos e consultorias projetam dólar a R$ 3,14 na média de 2003 e a R$ 3,32 na média de 2004. Ano passado, com bolha e tudo, a média ficou em R$ 2,94. Em valor real, deflacionado pelo próprio IPCA, o câmbio 2003 trafega abaixo do câmbio 2002. E o de 2004, para um IPCA esperado de 6,2%, o real seria revalorizado em 0,8%.

Em assim sendo, onde mora o perigo no núcleo do IPCA em declínio? Para variar, no bloco dos preços administrados pelo governo. Com peso 30 na formação do IPCA projetado de 9,6%, os administrados ensaiam fechar 2003 com variação de 13,3%. Bonito!

SECOS & MOLHADOS

Tomografia - Amanhã, o IBGE divulga o FBCF e o PIB do segundo trimestre. Esse tal de FBCF é sigla de Formação Bruta de Capital Fixo (investimentos na construção civil em geral e compras de máquinas e equipamentos nacionais ou importados).

Para baixo - Ano passado, tempo de terrorismo cambial, o FBCF regrediu 5,1% sobre 2001, tempo de apagão desavisado. Tem-se como certa, para este ano, uma retração de até 7,5% sobre 2002. O tombo no segundo trimestre teria sido de 12% sobre o mesmo período de 2002 (ainda antes da overdose cambial movida a sinistrose eleitoral).

Fundo do poço - Quanto ao PIB, caiu no primeiro trimestre e caiu ainda mais no segundo. Tecnicamente, a regra de bolso indica que a economia brasileira acaba de resvalar da estagnação para a recessão. Ainda que, precariamente, estejamos escorados pelas muletas da exportação. Sem opção.

www.joelmirbeting.com.br

mockup