''Eles trabalhavam por amor. Verdadeiramente, por amor.''

Brigadeiro Tiago da Silva Ribeiro, comandante de Alcântara

Tragédia da omissão

O que realmente explodiu na base espacial de Alcântara, sexta-feira, foi a antiga mania brasileira de encarar o desenvolvimento científico-tecnológico do País como atividade meramente residual nas políticas públicas e nas parcerias privadas. Contentamo-nos com a lógica da dependência e com a cultura da cópia.

Os pesquisadores brasileiros, em todos os setores, sobrevivem da vocação pela teimosia, pela privação e pela renúncia. Eles jamais conseguiram ultrapassar em suas carreiras o mata-burro de meia dúzia de burocratas descartáveis sentados nos orçamentos públicos ultimamente monitorados de fora para dentro.

Sim, está convencionado dispensar a investimentos com retorno garantido o tratamento de despesas a fundo perdido. Exigência renovada pelo FMI. Um foguete espacial ou uma nova prospecção da Petrobrás estão capitulados na rubrica de déficit público, com direito a contingenciamentos horizontais à ordem do superávit primário ardilosamente expurgado da massa de juros da dívida federal que financia o déficit nominal...

Que o diga o orçamento 2003 da Agência Espacial Brasileira (AEB). Ele já nasceu nanico: R$ 35 milhões para uma demanda mínima de R$ 102 milhões, segundo o presidente Luiz Bevilacqua.

Sintam agora o baque do chapéu vazio para cientistas e técnicos de refinada qualificação, envolvidos em tarefas sensíveis de precisão tecnológica e excelência operacional, no relato do astrônomo Ronaldo de Freitas Mourão: ''Na preparação do lançamento deste terceiro protótipo do VLS, os cortes de custeio começaram em maio de 2002. Eles forçaram o CTA a reduzir a jornada de trabalho para encurtar gastos com alimentação e energia elétrica. Ao longo de meses, às terças e quintas, os técnicos só podiam trabalhar a partir das 13 horas. Nas sextas, o expediente acabava ao meio-dia. Poupava-se o bandejão. Tudo isso para viabilizar o projeto...''

Um programa espacial já com 20 anos de atraso justamente por falta de verba, cavada pela omissão da classe política sem grandeza. Diz ainda Ronaldo de Freitas Mourão: ''E o que dizer da evasão de cérebros para o setor privado ou para o mercado externo? Um doutor com duas décadas de batente duro ganha, no máximo, R$ 2 mil por mês. Os que permanecem no programa, por idealismo patriótico ou amor ao trabalho, têm de combinar sobrecarga profissional com insegurança financeira, causadora de estresse pessoal e familiar. De resto, condição que se revela o pior inimigo para um trabalho de tamanha responsabilidade e de tolerância zero.''

Fica fácil, agora, a suposição de falha humana na tragédia de Alcântara, expiação suplementar de 21 famílias inconsoláveis. Não. A falha é bem mais no alto, a milhares de quilômetros planaltinos de Alcântara. Sem comentário do reitor do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), Michal Gartenkraut: ''Estou chocado. Não é hora de falar agora.''

SECOS & MOLHADOS

Quarentão -Nosso programa espacial completa 42 anos de atribulada existência. Já fazemos satélites, mas ainda não os foguetes. Nossos satélites embarcam em foguetes alugados. O aluguel de um lançamento custa exatamente dois orçamentos do protótipo do acidentado lançador VLS (US$ 12,7 milhões).

Precisão - O programa espacial tem a ver com a assunção da indústria brasileira ao estágio superior das tecnologias de precisão tangidas pelo chamado ''zero defect''. Presente hoje, por exemplo, em nossos hospitais. É lance também da computação e da telecomunicação made in Brazil. Não é luxo do país do Fome Zero.

Parcerias - No desenvolvimento do lançador VLS, o Brasil selou parcerias com Rússia e China e fecha contrato com a Ucrânia, enquanto busca desfazer o impasse com a ciumeira dos Estados Unidos. Alcântara, que precisa ser salva, será a base lançadora mais competitiva ou invejada do mundo. Pelo próprio endereço.

www.joelmirbeting.com.br

mockup