JOELMIR BETING
''O Banco Central tem tido uma conduta segura e serena. Sabe reduzir os juros no tempo certo e na medida certa.''
Antônio Palocci, ministro da Fazenda
Rumo certo, ritmo não
Com o corte cirúrgico de 2,5 pontos porcentuais da taxa básica de juros, vulgo Selic, ''por um Banco Central em pleno exercício de sua autonomia'', no grifo do ministro da Fazenda, o Tesouro Nacional acordou anteontem com uma redução líquida anualizada de R$ 8,7 bilhões no serviço da dívida pública. Algo parecido com dois Fome Zero.
Do total da dívida mobiliária federal, de R$ 690 bilhões na virada de agosto, a parcela remunerada pelos juros da Selic era de R$ 349,5 bilhões (já descontada a dívida transferida da Selic para a variação do câmbio). O governo é o maior devedor da praça. Ele enxuga no canudinho 70% do total da poupança financeira em banco.
Quer dizer: quando a taxa básica sobe ou desce, o setor público endividado perde ou ganha. No ato. Já o setor privado, bem, depende dos caprichos do mercado. Quando a taxa básica se movimenta para o alto, o efeito negativo é imediatamente repassado para os juros da ponta, aumentando a aflição dos aflitos - os mutuários do escasso crédito bancário para investimento, produção, giro e consumo.
Quando a Selic, piedosamente, embica o nariz para baixo, o efeito positivo revela-se gasoso e moroso. Os bancos preferem aguardar mais sete dias, tempo de gestação da ata da reunião do Copom. Cuja leitura se dá nas entrelinhas, voltada mais para a sinalização do futuro do que para a explicação do passado.
Nem poderia ser diferente. Banco, por definição, compra futuro, vende futuro, estoca futuro, transfere futuro. O próprio juro não deixa de ser um preço futuro, o preço da espera, com todos os riscos da adivinhação de mercado e da solvência do mutuário.
Quarta-feira, Copom anunciando a nova Selic de 22% ao ano, o mercado futuro de juros centrado na BM&F precisou de apenas 15 minutos, na mesma tarde, para rebaixar o contrato DI relativo a janeiro de 21,09% para 20,35%. Essa recalibragem da posição prefixada passou a jogar com Selic de 19% ali pela altura do Natal.
Reação do mesmo calibre deu-se com a taxa prefixada de prazo ainda mais longo, a do swap de 360 dias. Mais que a própria Selic, essa taxa constitui o verdadeiro piso referencial a partir do qual é formado o custo do crédito bancário na economia brasileira. Pois também na quarta-feira o juro do swap baixou de 21% para 20,15%.
Cabe rastrear a ondulação baixista da base à ponta da cadeia de crédito. Os bancos de varejo já anunciaram cortes anteriormente engatilhados para uma esperada Selic de 23%. Ficam para a semana que vem, na maioria, cortes adicionais para a Selic efetiva de 22%.
Nota da Febraban, entidade nacional dos bancos, aposta na manutenção do viés de baixa da Selic - ainda que viés não assumido nesta última tesourada do Copom. Que venha a ata da reunião.
Secos & Molhados
Reticência
O problema é que a ata do Copom, quinta-feira, 28, fará o ritual da transparência, pero no mucho. Nenhuma autoridade monetária responsável passa aviso prévio sobre juros ou sobre câmbio. A coisa fica acomodada mesmo é nas entrelinhas - onde metade do mercado jura que vê o cofre meio cheio; e a outra metade, meio vazio.
Ilusionismo
Pelo sim, pelo não, há quem prefira a bola de cristal dos contratos CDI para dezembro. Eles desenham juro nominal de 24,3%. Como a inflação medida pelo IPCA está projetada para 9,8%, tememos que vamos virar o primeiro ano do governo Lula com taxa real de 13,2%. Cadê o alívio, se o IPCA vai continuar descendo mais rápido que a Selic?
Santa Edwiges
Padroeira dos endividados, Santa Edwiges, polonesa, continua de vigília na cabeceira dos brasileiros insones. Não por caso, sua única paróquia na cidade de São Paulo está no endereço mais adequado do Brasil: Estrada das Lágrimas, 1.000.
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