JOELMIR BETING
''No Brasil, estabilizar preços é fácil. Difícil, mesmo, é estabilizar regras.''
José Augusto Marques, empresário
Quem tem a força
Os supermercados respondem pelo abastecimento doméstico de 76% da população brasileira nas cidades com mais de 30 mil habitantes. Eles acumulam massa crítica para monitorar o processo de formação de preços nas cadeias agrícolas, industriais e de serviços centradas no consumo corrente.
Na barganha do mercado, ostentam mais força que a dos oligopólios da indústria ou que os distribuidores no atacado. De tal sorte que para onde os supermercados vão a carestia nossa de cada dia vai atrás. Só os economistas do Copom e os monetaristas de prontidão ainda não foram avisados disso.
Sim, a concorrência entre os supermercados de todas as bandeiras (na ponta dos consumidores e na base dos fornecedores) tem feito mais pela estabilização do real do que a austeridade monetária asfixiante e a neutralidade fiscal paralisante.
Claro, não é isso que a gente aprende nos livros-texto de Economia. Mas é o que ocorre na realidade brasileira (ou americana) desde que as redes de supermercados abriram os cotovelos no suprimento básico das famílias de todos os níveis de renda. Esse poder de varejo, traduzido por poder de mercado, dobra a espinha de aço de oligopólios industriais que pontificam nos segmentos de alimentos industrializados, higiene pessoal e limpeza doméstica.
Entre nós, o choque de concorrência entre os supermercados veio de fora para dentro. Do efeito Carrefour à abertura do mercado aos similares importados. As grandes redes cuidaram de absorver as médias e pequenas e passaram a falar grosso na hora de colocar pedidos na mesa dos principais fornecedores. Até porque a concorrência entre elas se deu pelos preços (descontos, promoções, ofertas do dia, cartões de fidelização) mais que pelos serviços.
A estratégia estava em afagar o cofrinho do consumidor e rasgar a planilha do fornecedor. O processo de concentração do setor acelerou essa reviravolta. Ao contrário do passado, não mais se repassam custos para preços com casca e tudo. São os preços que os supermercados modulam que estão comprimindo os custos ao longo de cada cadeia produtiva. É topar ou sumir.
Ano passado, os preços na produção ou no atacado, medidos pelo IPA, emplacaram alta acumulada de 43%. No consumo ou no varejo, o efeito Carrefour (e não o efeito Selic) reduziu o dragão do IPC a 16%. Não houve repasse da bolha cambial do IPA para o IPC no ventre do IGP. A despeito de todo o alarde em contrário.
O embate foi tão feroz que as grandes redes apelaram para marcas próprias e algumas fábricas caíram na esparrela da maquiagem de produtos. No sufoco do cheque especial de 194% ao ano, os consumidores arrancaram o cordão umbilical da fidelidade às marcas e da fidelidade às lojas. Acabou o IPCA metido a besta.
SECOS & MOLHADOS
Pelas margens
A batalha campal do varejo com a indústria mobiliza também as lojas de eletrodomésticos, mobiliário e confecções. Ela explica margens estreitas para a cultura empresarial brasileira. Até junho, as redes exibiram rentabilidade média de 4,2%. Os principais fornecedores contentaram-se com 3,4%. Nas bebidas, 5,5%. Nos eletroeletrônicos, as fábricas ficaram no vermelho (-6,2%).
Concentração
Nos supermercados, as cinco maiores redes são donas de 43% do mercado brasileiro. Nos Estados Unidos, as cinco maiores controlam 62%. Na Europa, 74%.
Grande lance
Pois a terceira maior rede brasileira, a Bom Preço, do grupo holandês Royal Ahold, dona de 75% do mercado nordestino, está à venda. Ela fatura R$ 4,2 bilhões e estuda lances do Pão de Açúcar (que vende R$ 11,8 bilhões) e do Carrefour (R$ 10,7 bilhões). Sendas e Sonae estão de fora.
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