''Certas verdades emergem mais facilmente da confusão do que da convicção.''

Francis Bacon, filósofo inglês



Reverso do avesso


Ao aplicar a navalhada de um décimo e quebrados na taxa básica de juros, acima da aposta mais otimista do setor produtivo encruado, o Banco Central deve ter colocado o foco de seus faróis de neblina, não mais na reversão da carestia, mas na retração da economia.

A inflação já trocou o aclive pelo declive - sustentadamente. Ou de 15,43% nos últimos 12 meses para 6,47% nos próximos 12 meses - já dentro da bitola pactuada pelo regime de metas. Tanto mais porque inflação de custos e não de demanda. E não se deve combater inflação de custos com arrocho monetário que inflaciona os custos financeiros da produção e do consumo. A menos que se admita nos anais da pajelança monetária que a febre seja a causa da infecção.

Se no campo minado da carestia o mercado livre reajustou o prumo por sua própria conta e risco (a corcova inflacionária vem sendo produzida pelos preços do governo e não pelos preços do mercado), nas areias movediças da economia a sinistrose nacional não quer largar o osso. O retrocesso, que era do consumo presente, já pulou o fosso na direção da oferta futura. Os investimentos em ampliação, em inovação, em modernização, em diversificação, deixaram-se engavetar. Esperança ainda não rima com confiança.

Ontem mesmo, ao tempo que o Copom, piedosamente, reduzia o espectro do mal desnecessário, o IBGE soltava na praça a ultra-sonografia do nosso abalado sistema cardiorrespiratório. O desemprego está em 12,8% da população economicamente ativa e o rendimento médio do trabalho de 77 milhões de felizardos no batente continua em declínio, com perdas acumuladas de 16,4% nos últimos 12 meses. Uma devastação.

O rendimento médio do trabalhador brasileiro é agora de R$ 833,50. Em valor deflacionado, já esteve acima de R$ 1.250 na arrancada do real. O desgaste maior do poder de compra, em 12 meses, deu-se no trabalho por conta própria (-21,1%). O segundo maior tombo foi o dos rendimentos no trabalho informal (-12,7%). A quebra dos assalariados em carteira foi de 11,3%. Por enquanto.

Nunca se viu tamanho arraso, em tão curto prazo, nos rendimentos do trabalho. A tal ponto que a participação do trabalho na renda nacional não deve passar, nesta altura do calendário, de 32% do PIB. No ''milagre'' dos anos 70, transitava acima de 45%.

O achatamento cavernoso do orçamento doméstico - pela grave redução dos rendimentos do trabalho - passou a dar abrigo, nos últimos três anos, a dois vampiros planaltinos: o arrocho monetário e o garrote tributário. O primeiro, representado por taxas anualizadas de três dígitos no crediário de loja e no ''capital de giro'' da família, vulgo cheque especial, devora 32% da renda mensal. O segundo, encenado por tributos amoitados nos preços, outros 29%.


SECOS & MOLHADOS

Promessão

Conclusão: a renda familiar fica 16,4% menor em 12 meses e juros e impostos sequestram 61% dela. Então, com apenas 39% da renda familiar (do tamanho de 32% da renda nacional), o espetáculo de crescimento fica adiado para o Dia de São Nunca. O consumo interno é arrimo de 60% do PIB verde-amarelo de anemia.

Gradualismo?

O mercado financeiro, que se obriga a adivinhar o futuro, não acredita em Selic abaixo de 18% no curso dos próximos 12 meses. Mesmo apostando em IPCA de 6,47% no mesmo período. Esse par de números indica que a taxa real de juros não vai abrir mão da atual overdose de caráter criogênico. Ou sem caráter.

Caranguejo

Os mesmos analistas de bancos e de consultorias avisam que 2003 já é caso perdido ou página virada. O PIB está por eles projetado em 1,46%, abaixo até mesmo dos 1,51% do ano passado, tempo de terrorismo cambial no rodapé do processo eleitoral.

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