JOELMIR BETING
''A manutenção da Selic acima de 20% para um PIB abaixo de 2% não passa de uma distorção, de uma aberração, de uma tirania.''
Celso Furtado, economista
Coragem na baixa
Atarraxar a taxa básica de juros na face oculta da Lua, em nome de um diagnóstico equivocado da inflação brasileira, com sobras para uma percepção paranóica do risco Brasil, constitui realmente uma tirania da política monetária, na sentença irrecorrível do professor Celso Furtado, guru do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O questionamento acadêmico do arrocho monetário, convertido em mal desnecessário, tem como pé de apoio o comparativo externo. Enquanto o Brasil varonil resfolega com taxa básica de 24,50%, a Argentina igualmente combalida se contenta com 8,25%. O México diverte-se com 4,30%. E o Chile, nada além de 2,85%. Até a Venezuela, de caos em caos, se ajeita com 16,50% (para uma inflação de 32%).
Aqui, a autoridade monetária, de cara amuada, sustenta que uma Selic abaixo de 20% ao ano provocaria uma explosão inflacionária da noite para o dia. É como se a sociedade brasileira estivesse irremediavelmente condenada a sobreviver na recessão (se vacinada contra a inflação) ou a coexistir com a inflação (se dopada pela expansão). Caso único nos anais da medicina econômica dos povos.
Ora, se recessão derrubasse inflação, Collor, o demolidor, teria acabado com ela. Se expansão produzisse inflação, os tigres asiáticos, sem vocação para anta, não teriam voltado a cruzar PIB acima de 7% com IPC abaixo de 5%. Nem mesmo o Brasil 2000, repentinamente brindado com crédito bancário menos curto e menos caro, teria levantado o PIB de 0,7% para 4,4%, ao tempo em que o IPCA baixava de 9% para 6%. Pois até hoje não consegui localizar um único monetarista para me explicar esse fenômeno.
Autor da ousadia (sob a lupa monetarista) da moderada expansão do crédito com redução equivalente dos juros, o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga disse, segunda-feira, em São Paulo, em palestra no seminário do Ibmec: ''Não dá para imaginar viver num país com taxa de juros real de dois dígitos. O Brasil tem de fazer agora o que for necessário para passar a ser um país normal, com taxa real de 5% ao ano.''
Ocorre que o mercado financeiro, na última pesquisa semanal do Banco Central, projeta para os próximos 12 meses um IPCA de 6,47% versus 15,43% nos últimos 12 meses. O mesmo mercado acredita em uma Selic de 18,50% lá na ponta desse período. Essa taxa real de 12% tem tudo a ver com a manutenção do PIB abaixo de 1,5%. Ou, no primeiro semestre do governo Lula, com queda real de 1,3% no emprego e de 6,4% no salário. Fonte: IBGE.
O comentário é do professor José Alexandre Scheikman, ex-diretor da Escola de Economia da Universidade de Chicago, meca do monetarismo: ''O BC de Lula exibiu muita coragem na alta (dos juros) e bem que poderia mostrar a mesma coragem na baixa.''
SECOS & MOLHADOS
No velório
Hoje é dia de Selic, Brasil inteiro sentado no meio-fio, chorando lágrimas de esguicho, diria Nelson Rodrigues. Há espaço técnico para um corte de até 2 pontos porcentuais. Ou tempo político para até 3 pontos, agora que o vice José Alencar voltou a disparar fogo amigo contra os ''despropósitos'' do BC.
Sem farra
Baixar os juros e destravar os créditos não constitui nenhuma farra coletiva para o País mais arrochado do mundo (com empréstimos totais ao setor produtivo abaixo de 24% do PIB). Lá fora, os países competitivos dão as cartas com oferta bancária entre 80% e 130% do PIB.
Ranking
A tirania da política monetária, a que se refere Celso Furtado, está nas taxas finais para consumo. Nas lojas, o crediário já tem o ranking brasileiro da usura, montado pela Anefac. Pela ordem: 1) Rio Grande do Sul, 119,5%; 2) Paraná, 119,2%; 3) Minas Gerais, 118,7%; 4) Rio de Janeiro, 118,1%; 5) São Paulo, 112,9%.
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