JOELMIR BETING
''Quem apostar contra o Palocci vai perder. Ele não está aqui porque quis. Ele está aqui porque eu sempre quis que ele estivesse aqui.''
Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República (in Veja)
Por onde começar?
O tiro de partida para um espetáculo de crescimento duradouro teria de ser, nesta altura do calendário, um corte calculado de 2,50 pontos porcentuais na taxa básica de juros, a Selic. Quando? Amanhã à tarde, no final da reunião do Copom, que começa hoje.
Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva diz na televisão que ''o pior já passou'', o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, sustenta que já há condições seguras para um afrouxo no arrocho. Claro, sem comprometer-se com o grau e a hora desse afrouxo. De resto, assunto que não pode passar aviso prévio. Já basta a liturgia do Copom, que insiste no modelito americano de marcar data para mexer ou não na taxa básica de juros.
Analistas financeiros juram que os juros estão pecando por overdose do arrocho monetário, convertido em mal desnecessário. Rebaixar a Selic de 24,50% para 22% seria um refresco adequado para o endividamento do setor público e o relançamento do setor privado. Nada a ver com farra de crédito de padrão asiático.
O próprio governo já descobriu aos trancos e barrancos que a reticente credibilidade externa não se conquista com a crescente fragilidade interna. Juros nas nuvens fazem o jogo do capital volátil, ao tempo em que escorraçam o capital produtivo. Um governo petista gostaria de continuar enchendo a bola fútil do primeiro ou de passar a encher a bola murcha do segundo?
O mercado financeiro, auscultado pelo Banco Central na sexta-feira, aposta em Selic de 19,80% na ponta de dezembro. Ou de 16,50% no final de 2004. Ou seja: o arrocho não vai largar o osso. Em termos reais, tomando-se o IPCA como deflator, a taxa básica vai continuar na bitola de dois dígitos nos próximos 16 meses. Caso único no mundo.
O próprio mercado financeiro passa a operar contratos para um IPCA de 6,47% nos próximos 12 meses (setembro/agosto). Escoltado por um IGP-M de 6,75% no mesmo horizonte. A reversão inflacionária igualmente bate ponto na taxa gregoriana de 2003. A expectativa é de 9,74% para o IPCA e de 8,65% para o IGP-M (este, já menor que aquele).
Que tal uma Selic de 19,80% para um IGP-M de 8,65%? Dá para acreditar em relançamento orquestrado do consumo, da produção, do emprego? Nem do investimento em produção, reator da retomada sustentável. Investimento hoje abaixo de 18% do PIB, digno de um PIB abaixo de 1,5% ao ano. Ou de um desemprego de 13% da força nacional de trabalho, pela nova metodologia do IBGE.
Para o presidente Lula, o arrocho monetário em overdose, que já dura cinco mandatos de governo, significa ''pedalar uma velha bicicleta sem corrente que a gente pedala e pedala sem sair do lugar''. Com todo o nosso festejado malabarismo, o melhor que se pode fazer é não cair dela.
SECOS & MOLHADOS
Caranguejo
Para não mais andar de lado nem para trás, o mercado de trabalho precisa de um PIB de 5% ao ano. O que exige um investimento em produção de 25% do PIB. Pelo cheiro da brilhantina, fica para 2005 a reativação da economia brasileira. Com três batidas na madeira.
Segurança
Para encorajar o investimento de 25% do PIB, não basta aliviar o arrocho monetário nem mesmo afrouxar o garrote tributário (o Brasil cobra impostos asininos de bens de capital). É urgente retemperar a confiança, não só do investidor lá fora, mas do empreendedor aqui dentro. Confiança na segurança jurídica dos contratos de qualquer natureza.
Ponto morto
Até prova em contrário, o setor privado prefere ficar com o freio de mão puxado. Está na capa da revista Exame, nas bancas: ''Sem confiança, as empresas não investem. Sem investimento, o país não cresce. Sem crescimento, as empresas não têm confiança.''
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