JOELMIR BETING
''A intervenção estatal proíbe o que deve ser incentivado: a competição. Ao mesmo tempo, incentiva o que deve ser proibido: a cartelização.''
Gualberto Banas Figueiredo, consultor
Eles já brigam
A equipe econômica do governo Lula sustenta que os juros altos dos bancos estão precisando de um choque de concorrência aberta e franca entre eles. Sem um solavanco de desoligopolização do sistema financeiro não haverá estreitamento do ''spread'' bancário médio de até 43% para as empresas e de até 152% para as famílias.
Por esse prisma opaco, sem uma baita briga entre bancos pela conquista, ampliação e fidelização da massa de 63 milhões de correntistas, usuários, poupadores e mutuários, briga de padrão supermercados, não adianta rebaixar a taxa básica, vulgo Selic. De nada igualmente serviria aliviar os compulsórios, reduzir a cunha fiscal e acelerar as execuções judiciais de créditos sem retorno.
A abertura maior do setor aos bancos estrangeiros, de 14% em 1995 para 29% em 2002, não trouxe o decantado tranco de competição de fora para dentro. Os alienígenas cuidaram de mostrar serviço de dentro para fora, deliciando-se com a alta rentabilidade dos bancos brasileiros. Os 20 maiores bancos destilaram no primeiro semestre uma lucratividade anualizada média de 26,4% sobre o patrimônio líquido. Pois o BNP Paribas apurou 58,3%.
Ocorre que a competição entre eles já rola firme não é de hoje. A emulação manifesta-se na promoção do prestígio da marca, na oferta de produtos e serviços diferenciados, na batalha da captação de depósitos à vista e a prazo, na cobrança seletiva de tarifas, na oferta da agência online e do dinheiro digital, nos pesados investimentos em publicidade comercial e propaganda institucional.
E na ponta dos empréstimos? Bem, aí o Efeito Carrefour/Pão de Açúcar é de pouca vibração nas linhas, nos juros, nos prazos, nas garantias. Com a ressalva: executivos financeiros observam que os dois maiores bancos estatais, o Banco do Brasil (BB) e a Caixa Econômica Federal (Caixa), em nada ficam devendo aos bancos privados nos juros e nos lucros.
Nos lucros, para uma rentabilidade média de 26,4% sobre o patrimônio líquido dos 20 maiores bancos, no primeiro semestre, a Caixa Econômica Federal, com crachá de banco social, descolou um retorno de 34,9%. Nos juros, ela vinha cobrando até 8,55% ao mês no cheque especial. No Banco do Brasil, até 8,70%. Tanto quanto o Bradesco.
Ontem, CEF e BB baixaram essa bola de chumbo, coincidente e simultaneamente, para 7,90%. No crédito direto ao consumidor (CDC), o Banco do Brasil recuou para 5,40% (contra 4,60% na média dos 20 maiores bancos privados). E agora, José (Alencar)?
Agora, com a Nossa Caixa, único banco estatal de São Paulo, baixando os juros para 8,65% no cheque especial e para até 5,35% no crédito ao consumo, caberia constranger o governo Lula: por que os bancos estatais vacilam em aplicar o choque de concorrência que passou a ser cobrado dos bancos privados?
SECOS & MOLHADOS
Robin Hood
Membros da equipe econômica dizem que lucros de bancos estatais não são feios; feios seriam os prejuízos dos próprios. Afinal, é preciso ganhar muito no conjunto das operações para financiar a lucro zero políticas públicas de habitação, saneamento e microcrédito. Ah! Bom.
Pela metade
A redução dos compulsórios de 60% para 45% dos depósitos à vista liberou nada além de R$ 8,2 bilhões. Por que não rebaixá-los para 30% neste estado de emergência nacional? Não haveria farra de crédito. Haveria alívio na overdose do arrocho bancário, asfixia maior da economia brasileira.
Copérnico
Errata da coluna: o astrônomo Nicolau Copérnico (1473-1543) era polonês e não italiano. Nikolaj Kopernik de batismo, estudou medicina, geografia, matemática e astronomia nas Universidades de Cracóvia (Polônia) e Bolonha e Pádua (Itália). Virou do avesso a concepção do Universo e teve como principais seguidores o italiano Galileu Galilei e o alemão Joahnnes Kepler.
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