JOELMIR BETING
''A Matemática é fácil. Difícil é a Economia.''
Antonio Delfim Netto, economista
Quem não arrisca...
Professor de Psicologia da Princeton University, EUA, Daniel Kahneman, 69 anos, lidera pesquisas holísticas sobre a interferência dos caprichos humanos no curso dos processos econômicos. A hipótese de trabalho é antiga. Desde o século 19, sabe-se que os mercados se comportam ao largo do que nos ensina a teoria econômica lastreada por modelos matemáticos irretocáveis.
Dá-se à nova disciplina acadêmica o rótulo de Economia Comportamental. Seu campo de provas, escolhido pelo próprio Kahneman, é o cada vez mais neurotizado mercado financeiro. Nesse ''front'', ele trabalha a duas cabeças com o economista Vernon Smith, da George Mason University.
Ano passado, a Academia Real de Ciências da Suécia, como que fazendo o inventário das ''crises globais'' germinadas a partir da quebradeira asiática de 1997, com direito ao estouro da megabolha das bolsas em 2000, atribuiu a Kahneman e a Smith o Prêmio Nobel de Economia.
Se o mundo tivesse levado ao pé da verba as lições do ''behaviorismo financeiro'' destilado pela dupla, a exuberância centrada em Wall Street não teria sido tão irracional nem tão desastrosa - nos termos cunhados por Robert Shiller e endossados por Alan Greenspan. Para os quais, as perdas do mercado global, desde então, da ordem de US$ 12,4 trilhões, devem ser absorvidas como uma correção e não como uma tragédia.
Daniel Kahneman está em São Paulo para palestras e debates com executivos e investidores do BankBoston. Ele diz que as bolsas já voltaram aos respectivos eixos da volatilidade histórica (ultrapassado o descaminho da volatilidade histérica). O que não vacina os mercados contra futuras bolhas de euforia coletiva, infladas pelo indefectível efeito manada. Pelo qual, a ''irracional exuberância'' desfila como irmã siamesa da ''gananciosa ignorância'' dos limites de cada ciclo de alta supostamente rosca sem-fim. ''O investidor tem natural aversão ao risco, mas se arrisca por não saber a extensão do risco'', diz ele.
O próprio Kahneman se confessa um ''investidor ignorante''. Porém, até por causa disso, cauteloso e conservador. Disse terça-feira aos jornalistas: ''As informações do e para o mercado financeiro não são de boa qualidade porque erodidas pela quantidade, pela diversidade e pela velocidade. Como nunca antes. Com as operações online, tem-se de tomar decisões em tempo real. Então, não abro mão de consultores, aos quais peço que não me expliquem nem justifiquem as escolhas que fazem em meu nome. Minha ignorância é a minha proteção e não abro mão dela. Quem nada sabe tudo teme.''
Não por acaso, o noticiário financeiro mais parece oscilômetro psiquiátrico. Ele trabalha com estados de ''mau humor'' ou de ''bom humor'' do mercado. Outro dia, a Folha de S. Paulo sapecou em oito colunas: ''Falta de más notícias derruba dólar.''
Secos & Molhados
Bom negócio
A percepção gasosa de riscos alheios virou uma próspera indústria de monitoramento do mercado financeiro. São agências classificadoras de risco de empresas e de países que se abastecem com relatórios produzidos por analistas dessas mesmas empresas e países. Ainda que recheado de álgebra, o veredicto só pode ser subjetivo.
De alto risco
Ocorre que os avaliadores de risco realizam um serviço de alto risco. Tanto assim que erraram todos os botes na esparrela mexicana (1995), na implosão asiática (1997), na moratória russa (1998), na bancarrota argentina (2000) e na derrocada americana (2000/2001). Mas quem pagou o pato foi o Brasil (2002). Justamente o Brasil, onde ninguém perdeu um dólar até hoje.
Fora de foco
Na economia real, a teoria econômica estabelecida ainda não registra mudanças comportamentais de mercado no campo minado da livre formação de preços. Choques de competição, modernização e informação mudaram a etiologia e a diagnose da inflação. A terapia, ainda não.
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