JOELMIR BETING
''Com os juros nessa altura, temos de olhar o econômico, o social, o político, o cultural. Tudo isso se relaciona. Nada é estanquizado.''
Olívio Dutra, ministro das Cidades
Cadê o galileu?
O núcleo da inflação, pela métrica do IPCA, apruma-se para 4,5% ao ano até meados de 2004. Se é verdade (será mesmo?) que a curva dos preços tem tudo a ver com a curva dos juros (sem dar a mínima a choques de concorrência nos mercados e a ganhos de modernização nas empresas), há que se rebaixar a crista da taxa básica, vulgo Selic, para menos de 20%. Ainda este ano.
Na expectativa dos analistas financeiros, a Selic poderia ser amainada de 24,50% para 23% na canetada da semana que vem. Em mais três cortes ainda este ano, ela abriria 2004 em 18,50%.
Para onde os preços vão, os juros vão atrás... Ou não seria justamente o contrário? Empresários que se dizem analfabetos em teoria monetária, mas especialistas em gestão financeira, sustentam que o crédito curto e caro encarece o capital produtivo, inflaciona os custos da produção financiada, embrutece as taxas do crediário nos terminais do varejo e, fechando a roda, atrofia o consumo, encalha a produção, descarta o emprego e esfarela o salário.
Há um efeito inflacionário suplementar na overdose desse veneno puro disfarçado de remédio duro: a maioria das empresas opera entre 80% e 60% abaixo da capacidade instalada. Isso conserva os custos fixos da produção e eleva os custos por unidade de produto.
Igualmente analfabetos em teoria monetária, os sindicalistas lembram que os custos financeiros dos brasileiros movidos a crédito em banco ou a crediário em loja já evaporam 32% da renda mensal. Esta, com perda real de 14% nos últimos dois semestres. Tudo a ver com quedas, este ano, de 7% no consumo de alimentos, de 16% na compra de remédios, de 21% no varejo de confecções, de 22% no mercado de eletrodomésticos.
Ora, até o asfalto esburacado das rodovias federais sabe que os indicadores acima caracterizam caso típico de inflação de custos (reatiçada pelos estragos da fuzarca cambial de 2002). E, desde quando se combate inflação de custos com crédito curto e caro, receita já obsoleta aviada para surtos de inflação de demanda?
Ou ainda: desde quando arrocho monetário funciona para preços dolarizados pelo mercado e para preços administrados pelo governo? Pois os dolarizados e os administrados responderam por quase dois terços da escalada dos preços na produção ou no atacado em 2002. Do que resultou um IPA cavernoso de 43,2%.
A questão de fundo está em algo mais que desfazer a overdose da anorexia monetária. Está em remover o equívoco acadêmico que explica essa overdose. Equívoco na aplicação imperturbável da velha teoria monetária a uma realidade econômica que acumula mutações telúricas nos últimos 13 anos. Em especial, na etiologia e na diagnose da inflação. No mundo inteiro, Brasil no meio.
SECOS & MOLHADOS
Desafinado
Não há inflação de demanda nos países que financiam produção e consumo com oferta bancária acima de 100% do PIB com juros reais abaixo de 10% ao ano. Aqui, crédito abaixo de 25% do PIB, juros de até 65% na produção e de até 320% no consumo - com crescimento zero do produto por habitante. Nos usos e nos abusos da política monetária, um dos dois deve estar errado: ou o Brasil ou o mundo.
Galileu, urgente!
No Brasil, a ciência econômica jura que só a recessão segura a inflação. Pois, há exatamente meio milênio, os cientistas juravam que a Terra era o centro do Universo. Em torno dela giravam a cada dia o Sol, os planetas, as estrelas. Estava na cara. Então, o astrônomo italiano Nicolau Copérnico emitiu a heresia: a Terra está em rotação pelo eixo e revolve-se em torno do Sol. Em 1609, bastou ao matemático Galileu Galilei construir um tosco telescópio de zoom 20 para comprovar o achado empírico de Copérnico. Dona da Verdade, a Inquisição condenou Galileu à prisão perpétua.
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