JOELMIR BETING
''O Japão progrediu porque desmontou produtos importados para depois remontá-los em tamanho menor e mais barato.''
Vestibulando da Fuvest, citado por José Bueno Conti
Café verde de raiva
Uma saca de café verde pesa 60 quilos. Ela rende 48 quilos de café torrado (por desidratação). Nos bares e nos lares da vida, cada saca de torrado rende até 5 mil xícaras no Brasil (mais denso) ou perto de 7 mil lá fora (mais aguado). Expresso à parte.
Ocorre que a saca do verde, na porteira da fazenda brasileira, mal tem passado, em média, de US$ 50 (a dólar de R$ 3,00). Mas lá nos balcões e nas mesas de americanos, europeus e japoneses, a mesma saca de US$ 50 está valendo até US$ 7.000. Claro, café transportado, estocado, torrado, moído, preparado, tributado e servido.
Ressalva de lado, é uma distância lunática a que separa a cotação do grão paga ao produtor da afetação do luxo cobrada do consumidor. Não há valor agregado que explique tamanho disparate de mercado. Nem a cocaína ousa um ''spread'' tão quilométrico.
Essa verificação serve para dramatizar a necessidade que tem a cafeicultura brasileira, em toda sua cadeia de valor, de exportar o café torrado, moído, solúvel, a granel ou a vácuo, em vez do grão. É como se, no agronegócio canavieiro, a gente estivesse exportando cana em feixe e não açúcar e álcool.
Resultado: o maior exportador de café do mundo, em valor agregado, não cultiva um único pé de café. Nem para acervo de jardim botânico. É a Alemanha. Secundada pela Suíça e pela Itália, já com a França pedindo passagem. Sim, café torrado, moído, solúvel, embalado, a bordo de marcas próprias heráldicas.
No mercado mundial, o café cru é uma bolsa volátil manipulada pelo lado comprador. Com direito a oscilações de 40% a 70% nas cotações de três ou quatro anos-safra. Pois a cafeicultura brasileira está justamente no fundo do poço ou no brejo de três anos-safra consecutivos no vermelho. Incluídos os cafés finos - cujo custo por saca trafega acima de R$ 210 para um arábica médio cotado abaixo de R$ 180 (com robusta inferior a R$ 120).
Podia ser pior. A quebra da safra brasileira foi estrepitosa. De quase 50 milhões de sacas para perto de 27 milhões (a estimativa de safra é uma guerrilha estatística). Isso explica a recuperação dos preços. Sobre julho do ano passado, entrada da colheita anterior, os preços ao produtor subiram 53% no arábica e 67% no robusta. Ainda assim, abaixo dos respectivos custos de produção. E com apenas um quinto da colheita ainda por fazer.
Por enquanto, sem luz no fim do túnel do ciclo de vacas magras. Os estoques dos importadores são maiores que os dos exportadores. Enquanto a Organização Internacional do Café aponta para uma safra mundial de 101 milhões de sacas, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, o sabichão, prefere chutar 107 milhões. Faz parte.
No mercado interno, este inverno quente e seco levou o consumo a crescer abaixo de 10%, contra mais de 15% na média histórica da estação. Com o detalhe: há tendência de migração do café e do leite para o suco de laranja no desjejum da classe média brasileira.
SECOS & MOLHADOS
Atalho
O melhor atalho para embarcar valor agregado está no café solúvel - o tradicional e o liofilizado. As 10 empresas do segmento podem processar até 3,5 milhões de sacas por ano. Das quais, até aqui, 20% para o mercado interno e 80% para o externo. Na exportação, já com quase metade dos negócios ostentando 21 marcas brasileiras.
Da China
Presidente da Cacique, Sérgio Coimbra informa que o solúvel brasileiro passa a explorar na China o mesmo filão já desbravado na Rússia e no Leste Europeu. Os chineses começam a dar carona ao café na hora do chá, tal como já fazem há três décadas os japoneses e, há uma década, os russos, checos e poloneses.
Gigante
A esteira produtiva do café brasileiro sustenta perto de 8 milhões de empregos diretos e indiretos, no campo e na cidade. Um mercado de trabalho nove vezes maior que o da cadeia automotiva. E já cravando fronteira no noroeste da Bahia, cerradão central.
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