''Classificar prioridades e formular programas é muito fácil.Juntem três economistas e eles farão isso num domingo.''

Jacques Rueff (1896-1978), economista francês

Revirar a biruta

O presidente Lula reúne hoje todo o Ministério para classificar prioridades e formular programas. Medidas pontuais de curto e médio prazos que, em bloco (proibido falar pacote), ainda neste terceiro trimestre, fariam virar a biruta da recessão. Que já começou.

A ordem é dar partida ao emperrado espetáculo de crescimento - que o ministro-conselheiro Tarso Genro pede para não confundir com crescimento espetacular e o ministro da produção, Luis Furlan, prefere enquadrar como crescimento sem foguetório. O que rimaria com redução do arrocho monetário e afrouxo do garrote tributário.

Se classificar prioridades e formular programas é fácil, compete ao governo petista da remissão coletiva reverter algo mais que o viés da economia - do declive para o aclive. É preciso, urgentemente, reverter a reversão das expectativas, por onde transita o capital político do governo lulocêntrico.

A credibilidade do presidente, maior que a do governo e bem à frente da do partido, ainda dispõe de mais 40 dias e 40 noites de luz própria. Em assim sendo, não basta fazer com que as coisas deixem de piorar. É preciso forçar a barra frouxa para que certas coisas passem a melhorar. Ou se preferem: nesta altura do calendário da lua-de-mel coletiva, com data de validade quase vencida, acelerar o ritmo é tão importante como redesenhar o rumo e recalibrar o prumo.

A margem de manobra do governo não é estreita. Ele pode juntar, a curto prazo, medidas de remoção progressiva da overdose do arrocho monetário - convertido em mal desnecessário. Espécie de reserva de potência para uma demanda reprimida de igual tutano.

Ocorre que, dentro e fora do governo, ganha eco a cantilena de que os bancos ingratos fariam uso da disponibilidade maior de caixa, por infusão de depósitos liberados, para refinanciar o próprio setor público improdutivo. Com sobras para a remontagem de ''hedge'' cambial no mercado flutuante. Com ganho duplo: a) no dólar, entrar na baixa para sair na alta; b) no juro, faturar a alta reatiçada pelo dólar . De sobremesa, o desarme dessa pressão maluca por um corte de mais quatro pontos porcentuais da Selic ainda este ano...

A médio prazo, o governo teria como relançar o segundo maior canteiro de obras do mundo (depois da China) na energia, na telecomunicação, no saneamento, na habitação, na segurança e em todo o intermodal de transportes. Evidentemente, com a gloriosa estréia da PPP, a da Parceira Público-Privada em cada programa, projeto, contrato, capital.

O setor público não pode nem deve dar conta sozinho de investimentos anuais que totalizariam perto de 10% do PIB. Não mais desfruta sequer de reservas fiscais para financiar um quinto dessa empreitada. Só o déficit irremovível da Previdência já devora 5% do PIB. Com a reforma ''possível'', em penosa gestação, esse déficit pode não mais crescer, mas baixar que é bom, jamais.

SECOS & MOLHADOS

Para o alto
Para o capital privado, uma retomada pela base do investimento produtivo teria de contar, a curto prazo, com robustos sinais do governo e do mercado: salvaguarda jurídica dos contratos, adoção dos novos marcos regulatórios, aceleração das reformas, acordos setoriais ou verticais e programas de fomento horizontais.

No desvio
Uma retomada pela ponta do consumo teria de ser usinada por uma reversão das expectativas (pessimistas) da população. O que teria a ver com medidas que o governo não tem como anunciar hoje: recuperação do emprego e recomposição da renda - uma coisa ligada na outra.

Já no fundo
Única certeza, por enquanto: a economia acaba de bater no fundo do poço, tocando o basalto da recessão. Pior que a estagnação do crescimento por habitante igual zero. Pela inércia do processo, o primeiro ano do governo Lula já está na inadimplência de uma promissória eleitoral de 2,5 milhões de novos empregos.

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