''Governar é a refinada técnica de criar problemas. Cujas soluções mantenham o povo em suspense.''

Ezra Pound (1885-1972), poeta americano

De buraco em buraco

O governo Lula aprumou-se para investir, neste seu primeiro ano de estrada, R$ 630 milhões na malha rodoviária federal, matriz da Buracobrás S.A. Até julho, investiu nada além de R$ 2,7 milhões. Não dá para repintar as placas da sinalização rarefeita em seus 52 mil quilômetros de pistas supostamente pavimentadas.

Consultorias do ramo, hoje com capacidade ociosa de até 90%, malgrado o enxugamento continuado de seu capital humano de ponta, avisam que a malha federal, isoladamente, precisaria de quase R$ 10,5 bilhões por ano para um razoável programa de reparação, manutenção, ampliação e modernização. Algo parecido com um sétimo da massa de juros da dívida pública em 2003. Ou com uma dotação quatro vezes maior que a timidamente lançada no Orçamento da União em novembro e linearmente contingenciada em fevereiro.

Eis o pano de fundo do IV Congresso Intermodal dos Transportadores de Cargas, que se instala, nesta quarta-feira, em Fortaleza. O setor vai discutir com especialistas e autoridades toda uma pesada agenda em torno do maior gargalo estrutural da economia brasileira e da sociedade metropolitana: a deterioração do sistema intermodal de transportes de cargas. Sem contar, na mesma raia do desleixo nacional, o transporte (inter)urbano de passageiros.

Presidente da Associação Brasileira dos Transportadores de Cargas (ABTC), Newton Gibson diz que nosso intermodal como um todo (rodovias, ferrovias, hidrovias, portos, aeroportos e navegação de cabotagem) teria de investir R$ 68 bilhões em quatro anos para amainar o custo Brasil amoitado no sucateamento do sistema. Com o adendo: ''Não é tarefa para o setor público, irremediavelmente sem apetite e sem dinheiro. Ocorre que o capital privado ainda aguarda a regulação do setor e um financiamento adequado.''

O que não tem faltado, de governo em governo, é um rosário de taxas, multas e contribuições compulsórias para libertar nosso sistema circulatório da embolia, da trombose e da isquemia. A última invenção vinculante é a Cide. Ela reserva 75% da sobrecarga fiscal dos consumidores de combustíveis para a ressurreição dos transportes em geral.

Reservava. A estrepitosa carpintaria legiscrativa da Cide acabou dando em nada. A nova receita já está alocada na engorda de um superávit primário de 5,41% do PIB, acima dos 4,25% comprometidos no acordo com o FMI.

E o que dizer do Modercarga para transportadores autônomos, clone do vitorioso Moderfrota para tratores agrícolas? Bem, o Modercarga saiu para o acostamento da birra sindical. As centrais querem que o Modercarga resolva problemas dos metalúrgicos e não dos caminhoneiros. Sem mistério. Os primeiros participam da costura do programa. Os segundos, não.


Secos & Molhados

Humor negro
A crônica dos vazios e desvios do intermodal de transportes é peça de humor negro. Feita de perdas materiais e de perdas humanas. Além, claro, das perdas morais com obras que ainda faturam quilômetro de 800 metros e tonelada de 800 quilos.

Nem te ligo
De repente, abril de 2001, um temporal derruba uma frágil ponte da ligação ferroviária Alagoas/Pernambuco. A ponte que o rio levou há mais de dois anos ainda não foi reconstruída. Parece que ninguém acha falta de um modal ferroviário ruim à beça. Que seria a única opção para a ligação rodoviária aleijada e para a navegação litorânea bissexta.

Nas beiradas
Em Mato Grosso, nos arcos de Cuiabá, sobrevoei de helicóptero, há três semanas, a mais moderna cotonicultura do mundo. Mas com caminhões e utilitários rodando fora das estradas pelos acostamentos de terra batida. Não dá para encarar a buraqueira de cada pista dita asfaltada.

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