JOELMIR BETING
''A economia de mercado pode errar. A economia de comando, não.''
Karl Mannheim (1893-1947), sociólogo alemão
Que governo é esse?
O que estariam bradando os economistas do PT se um governo Serra tivesse renovado o acordo com o FMI, propondo-se buscar um superávit primário de 4,25%, acima dos 3,75% do governo FHC? Pior: e se esse mesmo governo Serra, mais católico que o papa, tivesse virado o primeiro semestre com superávit primário de 5,41%?
O que estariam vociferando os militantes do PT se um governo Serra estivesse colhendo nestes primeiros sete meses de trono um desemprego recorde de 13%, uma perda anual igualmente recorde de 14% da renda familiar, um crédito bancário de apenas 24,7% do PIB, um crescimento zero do PIB por habitante, um setor industrial com a maior capacidade sem uso em dez anos e com os investimentos gerais em formação bruta de capital fixo abaixo de 14% do PIB, menor aposta desde 1963, duros tempos de Jango?
O que estariam discursando os ideólogos do PT se um governo Serra, nesta altura do calendário, estivesse contabilizando para 2003 um dispêndio de R$ 150 bilhões só com os juros da dívida do Tesouro Nacional, inflacionados desde fevereiro pela caneta do Banco Central? Quer dizer: a massa de juros está convertendo um superávit primário anoréxico de 5,14% do PIB em um déficit nominal de 4,37% - a ser coberto pela dilatação de uma dívida pública bruta já da ordem de R$ 856 bilhões. Rolada a risco e a juros de risco.
Bem, para a raivosa oposição salvacionista made in PT de nada valeria um governo Serra descarregar toda a culpa na ''herança maldita'' da Era FHC para justificar a manutenção dessa ''capitulação incondicional ao modelo capinanceiro'' - que asfixia a economia, esgarça a soberania e estiola a cidadania.
Ora, não se está defendendo aqui políticas permissivas nos campos minados da estabilidade monetária e da austeridade fiscal. O que esta coluna diária deplora, há anos, é a ditadura de um equívoco de base acadêmica que não tem vacilado, de Sarney a Lula, transitando por Collor, Itamar e FHC, em vender à sociedade brasileira, sem discernimento, o falso dilema recessão ou inflação.
Que o diga esta última Ata do Copom, divulgada anteontem. A autoridade monetária insiste em proclamar que não há saída fora do arrocho monetário (no rodapé do garrote tributário). Ou seja: reduzir os juros equivale a elevar os preços. Incluídos os juros mais altos do mundo nos terminais de consumo (com punhaladas de até 330% ao ano no crédito mui fácil das financeiras).
O que se questiona aqui não é o monitoramento bancário nem o saneamento fiscal. E, sim, a overdose do arrocho no primeiro e, já agora, a overdose do garrote no segundo. Pois até o asfalto esburacado de nossas estradas e avenidas sabe que a diferença entre um remédio duro e um veneno puro não passa de uma simples questão de dosagem. Ou de imperícia nessa dosagem.
SECOS & MOLHADOS
Cabisbaixos
Sondagem da FGV junto a 1.190 empresas do setor industrial revela que o medo volta a cravar empate técnico com a esperança. Para 27%, a situação vai melhorar ainda este ano. Para 32%, a coisa vai piorar. Para 41%, tudo vai ficar como está para ver como é que fica. É o resultado mais jururu desde julho de 1995.
Desencanto
Analistas da FGV entendem que o governo Lula ficou bem acima das expectativas da indústria, até abril. Mas, com o soar da fanfarra do ''espetáculo de crescimento'', tem-se uma cobrança precoce da retomada que não houve. Se é que a biruta vai virar ainda este ano.
Mãos à obra
Pelo sim, pelo não, grandes redes do varejo, no pára-choque do mercado interno, deram de antecipar descontos e liquidações - zerando juros em até seis prestações. O diabo é que, quando os preços sobem, é inflação; quando os mesmos preços baixam, é promoção.
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