''O pessimista sustenta que já batemos no fundo do poço. O otimista garante que dá para despencar ainda mais.''

Woody Allen, cineasta americano



Águia bate asas


A economia americana, a inquebrantável, cresceu 1,7% ao ano no primeiro semestre e ensaia escalar até 3% neste segundo. Ela continua desafiando a lei da gravidade da recessão ou mesmo da estagnação (crescimento zero). Mas o que se fala e o que se ouve é a ladainha da sinistra recessão nos Estados Unidos, locomotiva do comboio de rodas quadradas da economia mundial.

O estouro da ''bolha'' da irracional exuberância de Wall Street, a partir de março de 2000, acabou sendo uma solução e não uma tragédia. Deu-se ali, com aviso prévio, um ajuste técnico para um mercado que pouco tem de técnico. O impacto dessa ''queda das nuvens'' fez desacelerar o obeso PIB de US$ 10 trilhões, a valores e deflatores da época, de 5% ao ano para alguma coisa abaixo de 2%. Não houve recessão nem crescimento zero em 2001 nem em 2002.

Para o economista Paul Krugman, fez mais estragos na rota da prosperidade americana a eclosão dos escândalos corporativos por volta de novembro de 2001. Mais que a implosão criminosa, sete semanas antes, das torres gêmeas de Wall Street, em 11 de setembro, o dia que ainda não terminou.

Pelo sim, pelo não, a ''crise americana'' tem de ser debitada ao sucesso e não ao fracasso do sistema. Uma crise tipo ressaca, com enjôo e enxaqueca, sob um governo bushista da variedade trapalhão.

Palavra do Livro Bege do Fed, de quarta-feira. O relatório da autoridade monetária, que sinaliza a manutenção da taxa básica de juros em 1% ao ano (a menor em 41 anos), coleciona indicadores esparsos que se encaixam em discurso de Alan Greenspan do gênero ''o pior já passou''. Malgrado o mau humor dos consumidores, flagrado na semana passada, com índice de confiança em viés de baixa, agora no menor nível desde julho de 2000.

Para o colunista Robert Samuelson, há boa dose de dissonância cognitiva (diria FHC) destilada pelos indicadores da economia americana. O próprio índice de confiança da população nos rumos da economia e nos prumos da sociedade deve ser colocado no devido lugar de sua tibieza metodológica, diz ele. Apurado mensalmente pela Universidade de Michigan, o índice nada mais é que a coleta telefônica do estado de espírito de 210 famílias da área de Detroit.

Outro reparo de Samuelson, no The New York Times de ontem: no terreno minado do desemprego, as duas estatísticas oficiais são rarefeitas e conflitantes. Na primeira, pergunta-se às empresas quantos trabalhadores estão em folha. Na segunda, pergunta-se às famílias quantos membros estão no trabalho. Pois, desde os solavancos de 2000, as empresas consultadas juram que botaram na rua 2,6 milhões de descartados ainda sem retorno. Mas as famílias pesquisadas confessam que, no mesmo período, não passam de 108 mil os que não mais voltaram a trabalhar.


Secos & Molhados

Aditivo 1

O governo Bush sacou do Congresso uma redução da cunha fiscal da renda familiar da classe média acima da média. Na semana passada, o Tesouro começou a distribuir cheques de restituição do Imposto de Renda da ordem de US$ 61 bilhões para saque até 30 de setembro, clique do atual ano fiscal.

Aditivo 2

Em outra tacada, Washington baixou os juros da hipoteca imobiliária (o SFH deles) de 6% para 5,2% ao ano. Resultado: a tomada de empréstimos habitacionais, da ordem de US$ 2,5 trilhões em 2002, avança para US$ 3,3 trilhões em 2003. Incluídos os refinanciamentos acima dos endividamentos (os populares ''cash out'').

Aditivo 3

Também por autorização da Casa Branca, o dólar se deixou perder 18% do seu poder de compra fora de casa (para uma cesta ponderada de 17% de outras moedas). Importou-se menos e exportou-se mais. Quer dizer: em ciclo de vacas magras, o governo americano faz o pudim neokeynesiano: nos impostos, nos juros e no câmbio.

www.joelmirbeting.com.br

mockup