JOELMIR BETING
''Não basta trocar o cantor. É preciso mudar a canção.''
José Maria de Jesus, motoboy desempregado
Só pega no tranco
Para voltar a crescer, a economia brasileira precisa carregar nos tanques do capital uma oferta bancária para produção e consumo da ordem de 60% do PIB - por baixo. É de 60% do PIB o piso do crédito ao setor produtivo em todos os países ricos e em dezenas de economias emergentes. Entre estas, algumas com disponibilidade de empréstimos de até 140% do PIB. Sem inflação.
A distensão financeira tem pouco a ver com o estoque ou o volume da poupança nacional. O Brasil tem poupança interna suficiente para financiar até 75% do PIB. Ocorre que nosso arrocho bancário, usinado por um monetarismo enrustido e anacrônico, tocado por economistas e burocratas que nunca entraram numa fábrica ou nunca pegaram na mão uma duplicata, tem submetido a economia brasileira a uma dieta bancária de campo de concentração: abaixo de 25% do PIB. Ou de 24,7% do PIB na virada do semestre.
O arrocho monetário serve-se de recolhimentos compulsórios de até 68% dos depósitos bancários à vista (há recolhimentos também sobre depósitos a prazo). Constrangimento hidráulico agravado por vinculações e direcionamentos de boa porção do ativo restante.
Vai daí que, da poupança financeira guardada em banco, nada menos de 75% estão aplicados no financiamento do setor público deficitário e improdutivo, com sua dívida mobiliária da variedade rosca sem-fim. Cuja rolagem exige a premiação do investidor de risco (o próprio sistema financeiro) com juros reais de 13,7% ao ano na média dos últimos sete anos.
Ah! Segundo o empresário Eugênio Staub, lulista de primeira fileira e membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), a retomada do crescimento teria de começar, necessariamente, por um alívio na overdose do arrocho monetário (sem contar algum refresco na overdose do garrote tributário).
Como desgraça pouca é bobagem nestes tristes trópicos, a reforma tributária em gestação aumenta ainda mais a aflição dos aflitos (os contribuintes) sem desarmar o arsenal dos atritos entre os confiscalistas vestidos de senadores, deputados e governadores.
Pelo sim, pelo não, Eugênio Staub avisa que o Brasil só deixará o acostamento do crescimento per capita igual a zero neste triênio 2001/2003 se, além de expandir o crédito bancário (com redução progressiva do compulsório), comboiar os juros reais para o padrão internacional de até 5% ao ano. Diz mais: dólar oscilando em ''banda de mercado'' de R$ 3,30 a R$ 3,40, ainda este ano, seria o ideal.
O problema é que a desoneração tributária e trabalhista do setor produtivo, segundo fator condicionante da retomada, ainda não faísca na linha do horizonte. Enquanto um alívio monetário é da exclusiva competência do governo, um refresco tributário seria da encardida atribuição do Congresso. Não dá, né?
Secos & Molhados
Balanço 1
Nesta altura do calendário, o sistema financeiro já tem na mesa o balanço completo do primeiro ano do governo Lula. A inflação fecha em 10,13% pelo IPCA (com 13,90% para o bloco dos preços administrados). O mesmo IPCA acumula 16,57% nos últimos 12 meses e resvala para 6,5% nos próximos 12. As metas oficiais jogam com 8,5% em 2003 e 5,5% em 2004.
Balanço 2
No mesmo balanço, capturado sexta-feira pelo Banco Central (Gerin/Bacen), os bancos projetam PIB gregoriano de 1,5%, repeteco do PIB franciscano de 2002. No arrocho monetário: a Selic não cairá para menos de 20% ao ano. Se é que haverá redução dos compulsórios ainda a tempo de salvar o Natal no fiado. A renda dos brasileiros totaliza perdas de 13% nos últimos 12 meses (IBGE).
Balanço 3
Câmbio ideal de até R$ 3,40? O mercado financeiro apruma-se para dólar a R$ 3,15 na ponta de dezembro. Ou para R$ 3,34 na mediana de 2004.
www.joelmirbeting.com.br





