''Certas coisas precisam mudar para que permaneçam as mesmas.'' Príncipe de Lampedusa, em O Leopardo

Ralobrás não muda

Ralobrás S.A. seria a razão social adequada para o regime previdenciário especial, mui especial, do setor público. A caixa-d'água do sistema atuarial dos servidores federais, estaduais e municipais funciona ou pensa que funciona com um ralo dez vezes maior que a torneira. Ralo tamponado pelos impostos nossos de cada dia através da rede de drenagem do Tesouro Nacional.

Para este ano, o déficit previdenciário somado do setor público e do privado está recalibrado para 5,2% do PIB. Algo parecido com R$ 74 bilhões. Dos quais, 73% por obra e desgraça do regime especial do setor público, endereço de apenas um em cada cinco segurados do sistema.

Ou se preferem: os 3,2 milhões de servidores respondem por déficit equivalente a 3,7% do PIB. Os 17,6 milhões de segurados do setor privado, sob o guarda-chuva furado do INSS, contentam-se com 1,5% do PIB. Sem contar, claro, outros 54,3 milhões de adultos pilhados pelo IBGE sem qualquer registro no sistema previdenciário brasileiro. O intocável.

Pois bem. No momento em que se identificam aposentadorias acumuladas de até R$ 49,4 mil por mês de taludos nababos do Legislativo e do Judiciário (com menos de 60 anos de idade), justa gratificação por relevantes serviços por eles prestados à Pátria dos oprimidos, Executivo e Legislativo, chargeados pelo Judiciário, engalfinham-se numa batalha política bizarra: a de reformar o sistema em troca de uma redução do déficit a futuro inferior a 10% do atual excesso de peso da Ralobrás S.A.

Escoltados por instituições paladinas da Justiça Social, de padrão OAB ou CNBB, os políticos reformistas admitem como ''mudança possível'' a virtual manutenção de um regime de redistribuição previdenciária que hoje concede a 80% dos aposentados do setor privado um arrimo mensal médio de R$ 374. No regime especial do setor público, a justiça social vai de R$ 2.272 no Executivo a R$ 7.902 no Legislativo. Ou a R$ 8.027 no Judiciário.

Em outros números redondos e não menos vergonhosos: o pijama dos inativos do poder Executivo é 6 vezes maior e melhor que o dos aposentados do setor privado. E os pijamas de seda chinesa dos inativos precoces do poder Legislativo e do superpoder Judiciário situam-se 21 vezes acima do estreito pijama de saco de estopa da ninguenzada do setor privado. Sem mistério. São abusos adquiridos fantasiados de direitos adquiridos. Legislados em causa própria.

Se a reforma faz tanta fuzarca por quase nada, no rodapé de um contrato social injusto, excludente e imoral (defendido pelos posseiros da igualdade, da fraternidade e da moralidade), a razão está com Henry L. Mencken, cáustico ensaísta americano, sobre os usos e costumes de Washington nos anos 50: ''Fazer política é a arte de administrar o circo a partir da jaula dos macacos.''

Secos & Molhados

Triste sina - Em toda mudança ou ameaça de mudança, a pequena minoria dos prejudicados faz um escarcéu danado no vácuo da omissão da grande maioria dos beneficiados. Os primeiros contam com um poderoso aliado, na categoria de inocente útil: a multimídia expedita, câmara de eco, por dever de ofício, do piorômetro nacional.

Piorômetro - No caso, o piorômetro verde-amarelo de labirintite está na manutenção de um sistema previdenciário que produz e perpetua nossa desigualdade social, na medida em que preserva a correia de transmissão dos rombos e das iniquidades da Ralobrás S.A.

Rosca sem-fim - Eis a correia de transmissão: o déficit aumenta impostos sem retorno social e contrata a dívida pública que sequestra créditos e embrutece juros. Resultado líquido: constrição do consumo, encalhe da produção, atrofia do salário, destruição do emprego. Brasil de Lula, também ele, parado no meio da pista.

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