JOELMIR BETING
''É tudo muito simples: a estatística é a obra de ficção da matemática.''
Norbert Wiener (1894-1964), matemático americano
Qual é o termômetro?
Estamos evoluindo. Da discussão das causas da febre dos preços, já sob controle, adernamos para a discussão da qualidade dos termômetros disponíveis na praça. Ou, precisamente, a qualidade do principal termômetro utilizado na (re)indexação de preços e tarifas administrados pelo governo: o IGP-DI/FGV.
Esse caldo de letrinhas significa Índice Geral de Preços (IGP), no conceito de Disponibilidade Interna (DI), produzido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Índice que deu de ser cotejado, com casca e tudo, com o IPCA/IBGE. Ou Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Dentre outros 14 medidores de inflação e/ou deflação, o IPCA deixou-se enobrecer como índice oficial do Banco Central para o regime de metas inflacionárias estabelecido em lei de 1998.
Como é sabido, o IPCA faz a captura da variação dos preços no varejo ou no consumo. Eu mudaria a sigla de IPCA para IPAC. Por uma simples e boa razão: Índice de Preços ao Consumidor Amplo é dose, né? Amplo é o índice e não o consumidor (cada vez mais atrofiado). Ficaria melhor um Índice de Preços Amplo ao Consumidor.
Quanto ao IGP-DI, criado em 1944, ele rastreia a variação dos preços no consumo (peso 30) e na produção ou no atacado (peso 60, mais 10 para a construção civil). É o único que pondera no mesmo índice geral a variação dos preços no varejo ou no consumo (IPC) e na produção ou no atacado (IPA). Ele dá carona ao irmão siamês IGP-M, o apressado, fechado 15 dias antes, por exigência do mercado financeiro, o tempestivo.
Em sendo assim, pode ocorrer eventualmente algum descasamento estrepitoso entre IPCA e IGP. Fenômeno observado quando há descasamento entre IPC e IPA no interior do próprio IGP.
Foi o que se deu nos últimos 12 meses, na crista da bolha cambial. Para um IGP acumulado de 26,92%, tivemos em seu ventre um IPC de 16,11% para um IPA de 33,56% - contra um IPCA de 16,57% (próximo do IPC de 16,11%). O mercado travou o repasse do IPA para o IPC.
Ocorre que, exatamente nesse desgarramento total do IGP-DI do IPCA, se deu o reajuste contratual das tarifas de energia e de telefonia.
Com o primeiro servindo, em lei, de indexador da reposição tarifária.
E deu no que deu. Para um Brasil que não tem cultura de respeitar contratos assinados, qualquer que seja o governo da vez, virou um escândalo o reajuste pelo IGP, que acabou ficando quase o dobro do IPCA.
E, não contentes em denunciar o uso do IGP na revisão tarifária, ministros e burocratas deram de questionar a própria existência do IGP - que aos 59 anos de idade estaria por merecer uma aposentadoria integral, tal como a de um servidor federal aos 48 anos. O velho índice passou a ser acusado de esclerosado, anacrônico e inadequado para indexar qualquer coisa. Pode?
SECOS & MOLHADOS
Defasado
Os críticos do IGP argumentam que a ponderação do índice não mais se ajusta às transformações da vida econômica. Por exemplo: a massa de serviços na economia tornou-se bem maior na estrutura de qualquer índice de preços que a dos produtos no atacado. O IGP teria sentido apenas como deflator implícito do PIB anual - função para a qual foi originalmente criado.
Sem grilo
O pessoal da FGV descarta mudanças na ponderação do IGP: é preciso preservar a série histórica e respeitar contratos vigentes por ele indexados. E mais: no tempo, IPC e IPA deslocam-se ombro a ombro dentro do IGP. O afastamento médio é de apenas 0,014 ponto porcentual do primeiro sobre o segundo - desde 1994.
Na paralela
Pelo IPCA, o reajuste acumulado das teles, de 1999 a 2002, teria sido de 39,89%. No período, o IGP-DI acumulou 40,62%. Diferença: 0,73 ponto porcentual. Ou seja: deixemos o IGP-DI em paz e exijamos planilhas de custos nos reajustes setoriais administrados.
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