JOELMIR BETING
''Eu falei ontem com a minha mulher:juro que não vou mais falar de juro.''
José Alencar, vice-presidente da República (em 11/6)
Vigília da Selic
Analistas financeiros de bancos, de empresas e de consultorias sustentam, em maioria, que a Selic já pode ser rebaixada, piedosamente, de 26% para 24,50%. Com viés de baixa fatiada para 20,50% ainda este ano. E não por pressão política do ''fogo amigo''.
Ejetado pelo Palácio do Planalto. Mas por condições técnicas - tão zeloso o Copom em decidir tecnicamente todas as coisas.
Tecnicamente? Escreve o jornalista Rui Nogueira, na revista Primeira Leitura (julho): ''Na manutenção da Selic, em maio, o que se viu foi o paradoxo do paradoxo. Porque dependente do poder político, sim, o Banco Central arriscou decidir contra o óbvio para demonstrar independência. Tal independência forçada, em vez de fazê-lo decidir sob critérios técnicos, levou-o a decidir sob o clamor político, porém invertendo seus sinais.''
E cá estamos, outra vez, com aviso prévio e com o coração na mão, aguardando para amanhã a magna tesoura do Copom: um corte de pelo menos 1 ponto porcentual na Selic de 26%. Véspera de decisão do Copom coloca 6 milhões de agentes econômicos travados em suas decisões e 174 milhões de cidadãos brasileiros perdidos em suas escolhas.
Não é para menos. Marcar data para mexer em juros, tal como no governo discute-se publicamente sobre câmbio, constitui um exercício de imprudência vendido como atributo de transparência. O mercado necessariamente especulativo diverte-se muito com isso. E a atividade econômica, sem alternativa, encolhe-se feito caramujo na praia. A paralisia defensiva dos negócios já desarticulados, desde a semana passada, tem a ver com esse ritual do Copom do Bacen brasileiro, importado do Fomc do Fed americano.
Pior: os analistas financeiros não mais se contentam com a decisão do Copom com data marcada. A ordem agora é aguardar a Ata da reunião - o arrazoado técnico da decisão. Tentativa de enxergar sinais oblíquos nas entrelinhas da Ata. Se assim é, por que não escrever e publicar a Ata no dia seguinte e não na semana seguinte? Não raro, um mero parecer sobre o óbvio.
Corre-se o risco de que algum evento interno ou externo, entre a reunião (de três dias) e a publicação da Ata (na semana seguinte), venha a caducar as pistas ou as dicas da própria. Única certeza: para a costura política do ''espetáculo de crescimento'', a mexida da Selic na base pouco significa sem o realinhamento pactuado dos juros na ponta do crédito bancário.
Tem-se aí um fenômeno botocudo: quando a Selic sobe, os juros para produção e consumo sobem logo em seguida. Certo? Mas, quando a Selic baixa, os juros de bancos e de lojas precisam de pelo menos 90 dias para o realinhamento em declive. Freud explica? Nem Friedman.
SECOS & MOLHADOS
Compulsórios
Presidente da Fiesp, Horácio Lafer Piva lembra que a redução do custo do dinheiro de aluguel tem de correr com dois cavalos no mesmo páreo: redução dos juros e ampliação dos prazos, com oferta maior de crédito. Ou seja: com redução dos compulsórios exagerados e das vinculações ociosas.
Encalhados
A autoridade monetária descarta a hipótese de redução dos recolhimentos compulsórios (de 60% dos depósitos à vista) sob alegação de que os bancos têm nas prateleiras R$ 52 bilhões parados, sem tomadores. Falta repensar: esse encalhe é fruto do excesso de liquidez ou do excesso de juros e de garantias?
Confiscados
Crédito curto e caro desvia a poupança financeira do setor privado produtivo para o setor público improdutivo. Além de financiar-se com sobras, o governo sequestra 49,5% do ''spread'' bancário sob a forma de cunha fiscal oculta. Ou envergonhada.
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