''Se o governo não financiar os caminhões, é melhor parar de financiar os tratores.''
José Maria de Jesus, consultor de logística



Espetáculo de entupimento


Com o Moderfrota, gerido pelo BNDES, o Brasil renovou e ampliou a frota nacional de tratores agrícolas em apenas três anos.

Algo a ver com a colheita recorde de 120 milhões de toneladas de grãos neste ano-safra 2002-2003 - aumento de 24% sobre a safra recorde anterior.

Com o Modercarga, igualmente usinado pelo BNDES, o Brasil espera substituir pelo menos um terço da frota nacional de caminhões. Uma sucata ambulante com média de 18 anos de uso e de abuso nas malhas de nossa vergonhosa Buracobrás S.A. Uma linha de crédito diferenciado e favorecido para os carreteiros independentes, ainda sem acesso a financiamentos bancários decentes.

Ocorre que a costura técnica do Modercarga acaba de colidir de frente com a (im)postura política das centrais sindicais. Consultados a respeito do novo programa, que de resto aliviaria a atual estagnação da cadeia automotiva, os sindicalistas passam a exigir, em troca do Modercarga (para caminhoneiros de arrimo familiar), a carga semanal de 40 horas para os metalúrgicos. O que uma coisa tem a ver com a outra?

O que está em jogo é o escoamento da produção agrícola em expansão continuada e já a um passo do estrangulamento operacional. Até porque, se deslocados os caminhões para as fazendas, nesta terra brasilis que dá frutos no verão e no inverno e que intercala safras do Sul e do Sudeste com colheitas do Nordeste e do Centro-Oeste, não haveria uma única carreta para as fábricas e não sobraria um único contêiner para as lojas.

Em matéria de logística integrada, conceito da moda, temos de arrancar do brejo, literalmente, todo o nosso intermodal de transportes.

Nas estradas e nas cidades; nas rodovias, nas ferrovias e nas hidrovias; nos portos e nos aeroportos. Se o PIB voltar a crescer acima de 5% ao ano - pelo piso do nosso potencial e da nossa vocação -, não teremos caminhões e vagões para os mercados, assim como já estão em falta o trilho e o asfalto para todos.

O ministro Roberto Rodrigues alerta para uma ''crise da fartura'' de caráter vexatório. Ou sem caráter. Qual seja: o colapso de escoamento e circulação de safras que tendem a dobrar de tamanho a cada seis anos aí pela proa - crescimento anual médio de 12%. Um entupimento das artérias da economia rural e do agronegócio em geral que produziria perdas de produto e de receita no campo e desemprego ainda maior na cidade.

Enquanto isso, sindicalistas da velha guarda preferem trovejar oportunismo corporativo. A ordem é fazer barricada na pista de largada do Modercarga na hipótese de ministros, montadoras e fornecedores não derem bola à redução pactuada da carga semanal de trabalho. Toque de mobilização? Falta de desconfiômetro.


SECOS & MOLHADOS

Rodovias

Na edição de domingo, o Estado fez o inventário da infra-estrutura parada no meio da pista mapeada para o ''espetáculo de crescimento''. A malha rodoviária pavimentada soma 71 mil quilômetros (um terço menor que a da Argentina). E 40% dela está no limite da degradação terminal. Sairá mais barato e mais rápido reconstruir do zero do que reparar os estragos do abandono.

Ferrovias

Enobrecido pelos novos paradigmas das empresas e dos mercados, o transporte ferroviário de cargas está em expansão e modernização em meio mundo, já de há muito bem servido pelo trem. Aqui, exceto os granéis sem opção, ele movimenta menos de 15% da carga geral. E com precária aderência intermodal.

Entupimento

Ampliação e integração dos transportes reclamam do ''espetáculo de crescimento'' um mínimo de R$ 12 bilhões por ano, de 2003 a 2012, nos cálculos da Abdib. A coisa não tem passado de R$ 2 bilhões.

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