''A civilização humana fugiu do sol e ao sol há de voltar. A ciência vai sanear os trópicos da praga e da doença.''
Herman Kahn (1917-1979), futurólogo americano



Crescimento miraculoso


Parece milagre, sim. Sem crédito suficiente, sem seguro adequado, sem refresco tributário, sem logística integrada, sem política agrícola, sem reforma agrária, sem prestígio na mídia e sem tolerância externa, a economia rural brasileira realiza, há 13 anos, por sua própria conta e risco, um espetáculo de crescimento verdadeiro. Sem alarde, sem promessa, sem trio elétrico.

A tal ponto que americanos e europeus, donos da fartura universal, sentados sobre estoques subsidiados e encalhados, não mais escondem seus calafrios diante do despertar do gigante ainda deitado em tão esplêndido berço. Eles imaginavam, até outro dia, que o Brasil sem juízo prosseguiria refestelado, por tempo indeterminado, em sua modorra tropical - um país rico de recursos e pobre de riquezas.

De fato, por décadas a fio, a economia rural brasileira teimou em destilar indicadores de baixa eficiência, padrão Jeca Tatu. Algo parecido, tanto nas lavouras como nos rebanhos, com menos de um terço da produtividade média dos Estados Unidos e da Europa Ocidental. O bom desempenho por propriedade ou por produto fazia a exceção e não a regra. Os aumentos da produção resultavam menos dos ganhos de produtividade no espaço já ocupado e mais da dilatação voluntarista da fronteira agrícola, supostamente interminável.

A própria Embrapa, estatal de excelência no ''front'' da pesquisa e da experimentação de campo, ainda não fazia a diferença. A mesma Embrapa que, aqui em 2003, coberta de respeito público, teve a luz e o telefone cortados por falta de pagamento. Ou por falta de orçamento. O general prefere poupar munição no auge da batalha.

A biruta virou nos anos 90. Ainda na raça e no grito - incluída a própria Embrapa, plantada em 1973 - o Brasil verde de esperança deu de fazer aposta de alto risco contra os caprichos do clima, os cochilos do governo e os azares do mercado. Com ou sem trocas de moedas, com ou sem bandas cambiais, com ou sem crises globais, com ou sem guinadas políticas, com ou sem desvãos do PIB, com ou sem soluços do IPA...

Resultado: do ano-safra 1990/91 a este ano-safra 2002/03, a expansão da área de cultivo dos grãos contentou-se com 15%, cobrindo hoje 44 milhões de hectares. Mas, sobre ela, a produção cresceu nada menos de 108%. Logo, com aumento de 81% da produtividade por hectare trabalhado. No algodão, que era cultura em extinção, o torque foi de 1,1 tonelada, lá na largada, para 2,7 toneladas, aqui na chegada.

Com o agregado das lavouras de inverno (segundo pavimento do território tropical), vamos fechar 2002/03 com o recorde histórico de 120 milhões de toneladas. Ou 24% maior que a safra recorde anterior. Realmente, é de dar medo. Lá fora.


Secos & Molhados


No susto

Em tom de alerta geral, o Relatório Mundial de Commodities 2002/203, divulgado pela Unctad/ONU, semana passada, não deixa por menos: em mais dez anos-safra, o Brasil ultrapassará os Estados Unidos, irreversivelmente, como o maior produtor mundial de alimentos. Com ou sem o desmanche pactuado do protecionismo agrícola de americanos, europeus e asiáticos.



No grito

Temos tudo para dobrar o PIB rural a cada seis anos, com expansão anual média de 12%. Claro, com ajuda de São Pedro. E com a reinvenção do crédito rural. Nesta safra, a oferta bancária voltou a encolher em relação ao PIB agrícola. Em termos reais, a safra de grãos cresceu 24%. O crédito, 10%.


No risco

O ministro Roberto Rodrigues já fala em ''crise da fartura'' aí pela proa. Se o PIB rural dobrar em seis anos, não haverá como armazenar, preservar e transportar tudo isso. Voltaremos ao assunto.

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