JOELMIR BETING
''No Brasil, errar é bem mais difícil do que acertar. O chato é que não perdemos a mania de errar.''
Gerson Guelmann, consultor
Com pneus murchos
Quando 25 montadoras e respectivos fornecedores e distribuidores decidiram, em bloco, investir mais US$ 27 bilhões no Brasil, em apenas sete anos, a partir da estréia do Real, a aposta era meridiana: com a estabilização da economia, haveria condição para fazer o PIB crescer acima de 4% e o mercado de carros novos ao redor de 7%.
Em 1997, o aperitivo não deixou dúvidas: a produção das fábricas antigas e das fábricas novas totalizou 2,1 milhão de unidades.
Das quais, 83% absorvidas pelo mercado interno (sem contar, na lateral, o derrame dos importados pelas próprias montadoras). Vai daí que a cadeia automotiva jogou todas as fichas para garantir, a partir de 2000, uma capacidade instalada para produzir, distribuir e exportar até 3,2 milhões de veículos por ano. No mais tardar, por volta de 2004.
Agora, em 2003, não devemos passar de 1,8 milhão de unidades, com o mercado interno resfolegando abaixo de 1,5 milhão. A ocupação da capacidade, que tem a ver com a planilha dos custos fixos, ficou abaixo de 55% nesta virada do semestre. Com cortes ou atrasos em programas de modernização nas engenharias de projeto, de produção e de produto.
Nas vendas externas, um mercado igualmente em ponto morto. Com as respectivas matrizes voltando a trafegar no vermelho. Aqui, as subsidiárias estariam perdendo 5% sobre as vendas, nos cálculos da consultoria Booz-Allen.
Ocorre que o Brasil tem reserva de potência nos motores da cadeia automotiva. Há elásticos enormes e frouxos no crédito bancário e na carga tributária. O primeiro, ainda o mais curto e o mais caro do planeta sobre rodas. A segunda, cada vez mais pesada ou gulosa, igualmente sem paralelo no mundo. Dá para civilizar o primeiro e amaciar a segunda.
Os estoques sem mercado totalizam 160 mil unidades - que já estariam perto de 250 mil se o setor não estivesse apelando para férias coletivas e redução de turnos, juntamente com promoções de fábricas e de lojas. Não me perguntem por que as montadoras elevaram os preços de populares e médios, no primeiro semestre, em até 18%, contra um IPCA de 6,6% ou um IPA de 4,8%. Ou um recuo de 19% no dólar.
Eis que o governo junta empresas e sindicatos ao redor da mesma mesa para discutir um programa emergencial de reativação do setor, endereço de 1,3 milhão de empregos, da base dos insumos à ponta dos serviços. As propostas vão da redução dos juros e dos compulsórios dos bancos das montadoras à redução dos impostos asininos sobre um mercado multiplicador de negócios, no qual uma unidade a menos de tributo pode significar uma unidade a mais de receita. A tal de Curva de Lafer, praticada por americanos, europeus e japoneses, explica essa mágica de sabedoria fiscal.
SECOS & MOLHADOS
Complicador 1
O programa emergencial em gestação ensaia pegar o desvio da demanda sindical oportunista. Os metalúrgicos pedem carona para a pauta trabalhista recorrente. Caso da redução perene da carga semanal para 40 horas ou da unificação do piso salarial em todo o País. Entraves igualmente parafusados na negociação do Modercarga (para caminhões).
Complicador 2
E desde quando se deve passar aviso prévio a um mercado quase parado sobre redução futura de impostos ou de juros? Só no Brasil. Ministros, presidente e vice antecipam-se sobre câmbio e sobre juros. Em alguns países, essa ''transparência'' é recepcionada com suspeição e escândalo.
Consumidor
No mais, planos de promoção de vendas têm de respeitar a lógica do consumidor e não a lógica do investidor, do produtor ou do trabalhador. Afinal, quando o consumidor ganha ninguém perde.
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