''Há sempre um limite após o qual a paciência coletiva deixa de ser uma virtude cívica e um endosso político.''
Edmund Burke (1729-1797), filósofo inglês

Crescimento estrangulado

O prólogo do espetáculo de crescimento teria como partitura a reinvenção do crédito bancário neste Brasil capinanceiro. Crédito bancário para financiar, não o setor público improdutivo, mas o setor privado reprodutivo. Financiar investimento, produção, giro e consumo.

Ocorre que o governo que faz soar as trombetas do crescimento é o mesmo que não pensa, não sabe, não pode nem deve desfazer-se da condição de sócio privilegiado do crédito bancário mais curto e mais caro do mundo. Sem trabalho, sem risco e sem remorso.

O come-quieto do governo repousa no tripé: 1) garrotes tributários e recolhimentos compulsórios sequestram 49,5% das taxas finais que os bancos cobram dos mutuários; 2) a overdose de crédito curto e caro para empresas e famílias faz sobrar dinheiro nos bancos para financiar o déficit público do passado, do presente e do futuro; 3) assim blindado, o governo embolsa metade do arrocho privado e recicla a totalidade da dívida pública (de 55% do PIB).

A verdade é que não interessa mudar as regras do jogo para quem está ganhando o jogo: o governo mão-de-gato e o setor financeiro competente (que faz do limão do arrocho monetário a doce limonada de uma rentabilidade média equivalente a 25% do patrimônio líquido). Bancos sólidos e líquidos dentro de mercados gasosos.

A cantilena do crescimento econômico no rodapé da criogenia monetária não desfruta da menor credibilidade pública. Ou se preferem: desfila a mesma credibilidade das promessas petistas de 10 milhões de empregos em quatro anos e da duplicação do valor real do salário mínimo no mesmo período.

Uma retomada do crescimento sustentável, sem papagaiada de trio elétrico, teria de começar pela redução orquestrada do custo final dos empréstimos para produção e consumo. Os primeiros, rodando hoje pela média ponderada de 65% ao ano. Os segundos, de 117%.

Dá para acreditar em espetáculo de crescimento com a classe média empenhando quase um terço da renda mensal (em declínio) na cobertura estressante da rolagem do cheque especial e do cartão de crédito acima de 210% ao ano? E o que dizer da classe pobre? No crédito fácil das financeiras ela expia juros de até 330% ao ano.

Pois bem. Para baixar os juros que asfixiam a produção, o consumo o salário e o emprego é preciso deixar a Selic em paz e dedicar tempo e espaço à discussão do formato e do conteúdo do chamado ''spread'' bancário - a distância que vai do que o banco paga ao poupador ao que o mesmo banco cobra do tomador. Aí, o governo Lula/ Alencar tem de recolher seu dedo em riste na cara dos bancos. Da tungada total, os bancos ficam com um quarto e o governo com a metade. O papagaio come o milho e o periquito leva a fama.

Secos & Molhados

Metade - Da decodificação do ''spread'' bancário, a fatia do governo soma a cunha fiscal dos impostos amoitados na taxa final com os recolhimentos compulsórios entesourados pelo Banco Central. Nos cálculos da Febraban, essa fatia é de 49,5% do ''spread'' total.

Um quarto - E a outra metade? Com 50,5% na mão, o banco fica com 24,4%, repassa 25,3% ao investidor e congela 0,8% no Fundo Garantidor de Crédito (FGC). O detalhe: a cunha fiscal vai crescer com a estréia dos ISS nos serviços bancários em geral.

Por que não? - Economista-chefe da Febraban, Roberto Luis Troster diz que uma cunha fiscal menor baixaria o custo do dinheiro, ampliaria os empréstimos e levaria o governo a arrecadar bem mais no volume maior dos créditos e na reativação geral dos negócios.

Elementar - Até o asfalto de Brasília sabe que mais vale tributar menos sobre mais do que tributar mais sobre cada vez menos.
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