JOELMIR BETING
''Na empresa moderna, o trabalho já virou estudo. Na escola moderna, o estudo já virou trabalho.''
Juliano Bastide, sociólogo
Melhorar é preciso
Em quantidade de matrículas no ensino fundamental, até 14 anos de idade, o Brasil exibiu festejado desempenho na década passada. Em dez anos, a inclusão escolar cresceu de 87% para 97%. Com o grifo da edição 2003 do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), da ONU, divulgado esta semana.
O problema está no marcapasso do sistema educacional brasileiro em padrões de qualidade e de produtividade do ensino. Ou do aprendizado. Um desfalque que vai do primário ao superior. Incluído, na ponta, o ensino das ciências. Ou como suspira o professor Oscar Hipólito, pró-reitor acadêmico da Uniban, de São Paulo: para cada 1 milhão de habitantes, temos apenas 180 cientistas.
A Argentina tem mais de 700 e os Estados Unidos, cerca de 3.800.
Na semana passada, a Unesco divulgou estudo comparativo de 41 países sobre a capacidade de leitura e apreensão e sobre as habilidades em matemática, física e química da estudantada na faixa de 15 anos. Para o Brasil, o resultado é um vexame. Estamos em 37º lugar. A Coréia do Sul, em 7º. Na liderança, os estudantes da Finlândia, do Canadá e da Nova Zelândia.
Nosso consolo está na decepcionante colocação do Chile, em 36º lugar. Ou na discreta posição dos Estados Unidos, em 16º
No IDH/ONU, com peso maior na educação formal, o Brasil aparece na 65 colocação, contra a 43 do Chile ou a 7 dos Estados Unidos.
Os americanos são os maiores investidores do mundo em qualificação continuada de recursos humanos na escola e na empresa. Em plena idade da Economia do Conhecimento (que Peter Drucker prefere enobrecer como Economia da Educação), os Estados Unidos destilam um modelo pedagógico utilitarista e profissionalizante. Uma educação de resultados que tem como corolário uma produção imbatível de patentes por uma parceria sem paralelo do mundo acadêmico com o universo corporativo.
Estudos do professor Paul Romer, de Stanford, demonstram que a liderança americana no ranking global de competitividade das nações tem muito a ver com este par de números: 74% das mil maiores empresas, de setores diversos, investem mais de 5% do faturamento em qualificação continuada de seus recursos humanos.
Algo como dizer que a empresa virou escola, assim como a escola já havia virado empresa.
Projeção do professor Gary Becker veste a mesma camisa do desafio americano da competitividade: por volta de 2010, os investimentos das grandes e médias empresas em capital humano (sem contar a remuneração do trabalho) estarão acima das inversões dessas mesmas empresas em capital físico. Empregos lastreados em conhecimento já respondem por 65% da força nacional do trabalho.
Secos & Molhados
Exclusão
Eis a questão. Doravante, como nunca antes, a exclusão educacional é sinônimo de exclusão profissional. Logo mais, aqui no Brasil cor de anil, quem não conseguir entender um manual não conseguirá emprego nem de porteiro de fábrica - se é que vai continuar carregando tijolos na construção ao lado.
Dispersão
Se a inclusão no ensino básico já está em 97% da meninada, é bom não perder de vista que de cada 100 matriculados no primeiro grau, só 41 conseguem alcançar o segundo. Na Coréia do Sul, emergente de vanguarda, o segundo grau recepciona 86 de cada 100 egressos do nível básico.
Revolução
Pobre de recursos naturais e hoje rica de recursos humanos, a Coréia do Sul realizou, nos anos 70, uma revolução pela educação. Antes, nos anos 60, havia executado uma revolução na educação. O Brasil ainda precisa correr com esses dois cavalos no mesmo páreo: revolução na educação e revolução pela educação.
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