JOELMIR BETING
''Vivemos mais dos sonhos do futuro do que dos planos do passado.''
Thomas Jefferson (1743-1826), estadista americano
Espetáculo sem foguetório
Em sua próxima passagem por Brasília, o presidente Lula espera encontrar sobre a mesa palaciana o cardápio das medidas de relançamento do consumo, da produção, do emprego e do investimento produtivo. O tal de ''espetáculo de crescimento'' prometido na campanha eleitoral e requentado no mês passado.
Com a ressalva do ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan: espetáculo, sim, pero sem foguetório. Não haverá um pacote de medidas de fomento ou de desobstrução de gargalos. Haverá uma seqüência tempestiva de medidas pontuais. Por exemplo: a ignição do Modercarga, linha especial de crédito para a renovação da frota nacional de caminhões, sucata ambulante com idade média de 16 anos nas malhas da Buracobrás.
Pretende-se com o Modercarga, gerido pelo BNDES, reprisar o sucesso do Moderfrota para os tratores agrícolas. Sucesso que tem a ver com a expansão continuada da safra de grãos em lavouras mecanizadas. Moderfrota nos tratores sem Modercarga nos caminhões contrataria no presente um terrível vexame para o futuro: não haveria como escoar colheitas em dobro ainda nesta década...
Ainda no setor automotivo, de grande visibilidade, o governo Lula veste-se de governo Itamar e estuda nova redução do IPI para os carros da estirpe popular - hoje com encalhe recorde mascarado por férias coletivas das montadoras. Efeito punitivo para um mercado que estiola a clientela sem opção no emprego menor e no salário menor versus imposto maior e juro maior. Pode?
Eis a questão. Não é preciso sofisticar modelos de política industrial para relançar o PIB verde-amarelo de anemia. Um espetáculo de crescimento verdadeiro e sustentável teria apenas dois atores no palco: o desmanche da overdose de arrocho monetário (um mal desnecessário) e o refresco da overdose do garrote tributário (com sua asneira de tributar cada vez mais sobre cada vez menos).
Nos cálculos do Ipea, o PIB do primeiro semestre transitou para baixo e para trás. Algo parecido com queda real de 0,7%. Nada a ver com a projeção oficial de um PIB gregoriano de +1,7% em 2003. Tudo indica que vamos fechar o triênio 2001/2003 com crescimento do produto por habitante igual a zero. Ou abaixo de zero.
Enquanto isso, a inflação resvala para a deflação transitória, com o índice no atacado (IPA) desacelerando mais que o do varejo (IPC). Quando o IPA trafega bem acima do IPC, sai todo mundo às ruas brandindo o aviso fúnebre: o IPA está grávido do IPC. Ou seja: a alta do atacado de hoje dará à luz a alta do varejo de amanhã. Agora que o IPA fecha o semestre em 3,04% contra 6,55% do IPC, ninguém se lembra de avisar que o primeiro continua grávido do segundo. Freud explica? O sadomasoquismo do debate econômico explica.
Secos & Molhados
Pelas taxas
Com IPCA do ano reprojetado para 11%, contra 16,57% nos últimos 12 meses, reinstala-se no governo o ''fogo amigo'' no peito do Banco Central - por uma redução da taxa básica (Selic) de 26% para 25% ao ano. O ministro Antônio Palocci já deixou escapar que na ponta de dezembro a Selic poderá contentar-se com 20%.
Pelas pontas
Ocorre que a reativação da economia depende, não da redução homeopática da taxa básica, mas da redução substantiva dos juros para produção e consumo. Nos primeiros, média de 63% ao ano. Nos segundos, média de 117%.
Pelas bases
Enquanto isso, o ministro Luiz Fernando Furlan adianta que os créditos do BNDES crescerão de R$ 34 bilhões, este ano, para R$ 47 bilhões em 2004. Presidente do banco, Carlos Lessa diz ser imperiosa a retomada do crescimento a partir dos projetos de infra-estrutura econômica e social. O carro à frente dos bois.
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