''Precisamos de apoio no vácuo e de luz no abismo. Mitos e deuses estão definitivamente destruídos.''
Menotti del Picchia (1892-1988), poeta



Reeleição com apagão?

Um novo apagão no ano da (re)eleição, inverno de 2006, já se tornou hipótese jurada forte por 77% dos executivos do setor elétrico brasileiro. No mais tardar, com alguma colaboração não dispensável de São Pedro, o racionamento sobraria para 2007.

Revelação de pesquisa feita pela Associação Brasileira da Infra-Estrutura e Indústrias de Base (Abdib) e divulgada, terça-feira, em São Paulo, no encerramento do Fórum Brasileiro de Energia Elétrica - Infra 2020. Algo parecido ocorreu em 1995, tempo de concepção do modelo de privatização do megamercado da força e da luz. Na época, consultores do ramo mandaram aviso aos governantes: haverá um apagão já contratado por volta de 2002. Erraram. Foi em 2001.

E, tal como em 2001, um novo apagão em 2006 ou em 2007 tende a ser fabricado menos por falta de chuvas e mais por falta de regras que justifica falta de verbas que explica falta de obras. Neste momento de arara na muda, temos em obras já licitadas e lançadas uma paralisia da ordem de 7.100 megawatts, no informe de José Augusto Marques, presidente da Abdib.

Estas são as quatro causas de uma futura encrenca setorial, pela ordem: 1) recaída, na troca de governo, do famigerado vácuo regulatório; 2) até por obra dessa porosidade jurídica dos contratos, estiagem das fontes privadas de financiamento dos projetos; 3) intermitência da estrutura tarifária ciclotímica, geradora de perdas de bilhões nas revisões quadrienais em curso; 4) opacidade e morosidade dos intrincados licenciamentos ambientais.

Para o consultor Cláudio Salles, presidente da Câmara Brasileira de Investidores em Energia Elétrica, a remodelagem do setor pelo governo Lula, ainda na fase dos balões-de-ensaio, não deixa de ser uma corrida contra o relógio do apagão 2006/2007. Ou se refazem as regras do jogo em mais 45 dias de gestação do ''processo de transição'' ou não haverá retomada de investimentos privados (nem estatais) ainda este ano.

Enquanto o secretário-executivo do Ministério das Minas e Energia, Maurício Tomalsquim, anuncia para a próxima semana a reunião do Conselho Nacional de Política Energética que vai referendar o novo modelo do setor, a ministra Dilma Rousseff diz que ainda há tempo de desligar a tomada de uma nova crise de abastecimento daqui a três ou quatro invernos.

Desafio pesado. Segundo Cláudio Salles, o sistema brasileiro passa a exigir inversões continuadas de no mínimo R$ 15 bilhões por ano em geração, transmissão e distribuição. Ou bem mais que isso, se o governo realizar o ''espetáculo de crescimento'' a partir de medidas que seriam anunciadas em uma próxima passagem do presidente Lula por Brasília...



SECOS & MOLHADOS

Lição de casa

Pelo sim, pelo não, o presidente da Eletrobrás, Luiz Pinguelli Rosa, garante que a estatal vem fazendo a lição de casa. Ela pretendia investir R$ 2,5 bilhões em 2003, mas acaba de ampliar o esforço para R$ 3,5 bilhões. Dois terços, lastreados em recursos próprios. O restante, em captação externa.

Nariz torcido

Ocorre que o Banco Mundial, alertado pelo ''imbróglio'' tarifário das telecomunicações (igualmente em transição institucional), divulga estudo a quem interessar possa: os riscos regulatórios do setor elétrico brasileiro, até prova em contrário, são maiores que os da Argentina, Chile, Peru e Bolívia. Que tal?

Sem jeitinho

Nos dados da Aneel, agência reguladora, a capacidade geradora já instalada, de todas as fontes, soma 84 mil MW. Se o PIB crescer 3% ao ano, o dobro de 2002/2003, teremos de agregar mais 3.000 MW a cada ano.

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