JOELMIR BETING
''O subdesenvolvimento não se improvisa. O subdesenvolvimento é obra de séculos.''
Nelson Rodrigues (1912-1980), jornalista e escritor
Qualidade de vida
Endereço de um terráqueo em cada cinco, a China cresceu pela média anual de 8% na década passada e mais que duplicou a renda nacional no período. Ainda sob o cabresto do Partido Comunista, os chineses cuidaram de embarcar por atalhos da economia capitalista e ganharam a taça de campeões da globalização.
Ocorre que, no ranking global do desenvolvimento social, a China dos comunistas ainda não conseguiu colocar-se entre os 100 países com melhor qualidade de vida. Ela aparece em 104º lugar na edição 2003 do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), atualizado todo ano pela ONU, desde 1975. O Brasil desfila na 65 posição.
A metodologia do IDH é de autoria de um grupo de cientistas sociais liderado pelo professor Amartya Sen, Prêmio Nobel de Economia de 2000. Metodologia questionada pelo professor Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia de 2001. Para quem ficaria melhor classificar o grau de desenvolvimento humano das nações pela média ponderada de um índice triplo: desenvolvimento econômico, desenvolvimento político e desenvolvimento social.
Joseph Stiglitz sustenta em livro de 2002 (Globalization and its Discontents) que o crescimento econômico não traz a felicidade coletiva se desfalcado de políticas públicas de redistribuição da renda nacional e se não sancionado por instituições verdadeiramente democráticas e imperturbáveis.
A verificação anual do IDH da ONU, edição 2003, revela que os 22 melhores países, em promoção humana, os únicos com IDH superior a 0,900, são todos eles economicamente fortes, socialmente justos e politicamente abertos. Não deve ser mera coincidência.
Os 10 melhores, pela ordem: 1) Noruega, 0,944; 2) Islândia, 0,942; 3) Suécia, 0,941; 4) Austrália, 0,939; 5) Holanda, 0,938; 6) Bélgica, 0,937; 7) Estados Unidos, 0,937; 8) Canadá, 0,937; 9) Japão, 0,932; 10) Suíça, 0,932. Do 11º ao 22º lugar figuram outros dez países da Europa Ocidental, mais Israel e Nova Zelândia.
Os 20 países em pior situação - com IDH abaixo de 0,400 - são todos da África, sem exceção. A América Latina transita pelo bloco intermediário. Os dez melhores: Argentina (34º), Uruguai (40º), Costa Rica (42º), Chile (43º), Cuba (52º), México (55º), Panamá (59º), Colômbia (64º), Brasil (65º) e Venezuela (69º).
Com IDH recorde de 0,777, o Brasil aparece mais bem cotado nos quesitos acesso ampliado à educação, aumento da expectativa de vida e emancipação das mulheres na economia e na sociedade. Mas perdeu pontos no achatamento da renda e na má distribuição da própria. Pelos critérios do IDH, o Brasil não é mais um país subdesenvolvido, mas ainda está longe de ser um país desenvolvido. Nosso crachá é de país desigualmente desenvolvido.
SECOS & MOLHADOS
Educação
O Brasil registra avanços quantitativos no sistema educacional público e privado. Na década passada, a taxa de matrícula bruta, até 14 anos de idade, saltou de 87% para 97%. Os analistas da ONU fazem reparos à baixa qualidade do ensino, inferior à média da América Latina.
Exclusão
No relatório da ONU, 1 em cada 10 brasileiros vegeta com renda mensal inferior a US$ 30. A faixa da população brasileira em estado de desnutrição crônica declinou de 13% para 10% nos últimos 12 anos. São 17,5 milhões de patrícios, alvo preferencial do Fome Zero.
Boa virada
O indicador social de maior ganho desde 1990 é o da mortalidade infantil (até 5 anos de idade por 1 mil nascidos vivos). A proporção dessa fábrica de anjos declinou de 60 para 36 em 12 anos. O detalhe: dois terços da mortalidade infantil são atribuídos a doenças provocadas pela água sem tratamento sanitário.
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