''O desemprego é um acidente econômico que machuca fundo a dignidade humana.''
John Fitzgerald Kennedy (1917-1963), presidente americano


Palco ainda vazio

O brasileiro perde o rumo no desemprego que se aproxima de 13% e perde a força no rendimento médio dos que trabalham, com queda de 14% nos últimos 12 meses. Fonte: IBGE. Como desgraça pouca é bobagem, essa combinação de emprego menor com renda idem volta a reduzir o consumo que reduz a produção que reduz o emprego que reduz o rendimento do trabalho.

Consta que a participação da renda do trabalho de 85 milhões de brasileiros (58% no trabalho informal e/ou no trabalho autônomo) mal passaria, hoje, de 33% do PIB. A renda do governo improdutivo, representada pela extração fiscal bruta, já está acima de 36%.

A dólar médio de 2002, o PIB verde-amarelo de anemia não passou de US$ 449 bilhões. Quer dizer: andando de lado, feito caranguejo no mangue, o Brasil ficou do exato tamanho da WalMart (vendas de US$ 245 bilhões) somado com o da Exxon-Mobil (US$ 204 bilhões). Ou bem abaixo do valor de mercado, em junho, da soma da General Electric (US$ 286 bilhões) com a Microsoft (US$ 264 bilhões).

A comparação pode ser esdrúxula. Mas esdrúxula, mesmo, é a promessa renovada pelo governo Lula, o festivo, de um ''espetáculo de crescimento'' a partir deste mês. Negativo. Não há sequer na praça da matriz o fermento da retomada - o da expectativa coletiva de manutenção e/ou dilatação de renda futura. Sem a qual não se promove a antecipação do consumo no presente. Até porque cadê o crediário decente?

Bem ao contrário, enquanto o comércio lojista estima para o primeiro semestre uma retração de 7%, em termos reais, a indústria de embalagens registra, no semestre findo, recuo de 11% nas vendas. Com mais de um terço da capacidade de produção entregue às teias de aranha. No segmento de embalagens de plástico, barômetro do consumo de ponta, a capacidade ociosa, em junho, ficou abaixo de 50%.

Pelas plataformas da atividade econômica, a indústria de bens de capital (máquinas e equipamentos) informa que as encomendas do semestre saíram para o acostamento do desalento geral. A queda real teria sido de 23%, nos cálculos da Abimaq. Ou de até 40% nos ramos de energia, telecomunicações, saneamento e transportes, na palavra de José Augusto Marques, da Abdib. Isso bate com um declínio de 18% nos projetos da construção civil, de acordo com o Sinduscon. No segmento habitacional, retrocesso de 9%.

Construtoras são montadoras. Ramos industriais de montagem exercem efeitos multiplicadores poderosos sobre o setor produtivo como um todo. Multiplicadores para o alto ou para baixo. As montadoras de automóveis, mercado em marcha à ré, relançam a onda das férias coletivas, dos bancos de hora e das promoções a juro zero. Na vigília, claro, do iminente espetáculo de crescimento.



SECOS & MOLHADOS

Pela ordem
Retomada sustentável é aquela que começa pelo investimento na base e não pelo consumo na ponta. Sustentável porque garantidora da oferta futura para a demanda futura. Sem a qual haveria a rebrota da temível inflação de demanda. O ideal é despertar a confiança do empreendedor, antes que do consumidor.

Apostando
Sondagem da FGV adianta que apenas 30% das empresas estão investindo, este ano, em ampliação, diversificação e modernização. Até prova em contrário, a maioria continua apostando no governo Lula, mas só da boca (ou do bolso) para fora. Segundo o Sensus (CNT), 76% dos empresários aprovam as decisões e as intenções do novo governo.

No câmbio
Eis que entra no brejo da sinistrose nacional o festivo mercado exportador, dono de 13% do PIB. Ele torce o nariz para a revalorização do real no primeiro semestre. Da ordem de 11%, em termos reais.


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