JOELMIR BETING
''Não preciso mais de dinheiro. Agora sou um homem inédito. Comprei minha independência com sete cartões de crédito.''
Carlos Queiroz Telles, poeta (em UniverCidade)
A moeda digital
No princípio, a moeda dos homens de boa vontade era o sal, o trigo, o carneiro, o escambo. Com os sumérios, virou ouro, prata, bronze, latão. Com os chineses, couro, papel e tinta. Doravante, com os meus netos, a moeda apronta-se para sobreviver unicamente como cartela de plástico magnetizada e cada vez mais chipada. Um porta-níqueis inteligente e sem limite do dinheiro digital, que já chegou.
Dizem que, ali pela proa da próxima década, banda larga verdadeiramente larga já abraçando todo o planeta do Telecosmo e da Fibrosfera, vislumbrados por George Gilder, a ferramenta única dos meios de pagamento de qualquer valor não passará de uma senha virtual ou intangível.
O cartão de crédito, por obra e graça de sua própria evolução, será substituído por um clique. Até lá, ainda vai dar para imaginar um mendigo na porta da igreja faturando a caridade alheia no cartão, em terminal no joelho do tamanho de um maço de cigarros. E pagando CPMF em cada esmola, o coitado.
Pois já temos motoristas de táxi recebendo no cartão, assim como já vi donas de casa pagando verduras com cartão em bancas da rua ao lado, nas feiras das quartas-feiras. E o que dizer dos 68 milhões de cartões ''private label'' já emitidos por redes de supermercados e por lojas de departamentos? Nesse nicho, os plásticos do dinheiro virtual avançam acima de 35% ao ano. Faz parte da (re)fidelização da clientela.
Quanto à base de cartões de crédito e de débito das bandeiras do ramo, a coisa igualmente já deslanchou. Ano passado, o número de cartões cresceu 17% e o de usuários, 13%. Nesta travessia de 2003, o estoque nacional das administradoras de cartões deve furar a barreira de 50 milhões.
Executivos da Visa, da Mastercard e da Credicard, bandeiras de maior peso no mercado, lembram que o Brasil é parada dura para a difusão do uso do cartão de crédito/débito. O segmento tem de atropelar, como em nenhum outro mercado lá fora, a concorrência do cheque pré-datado e do cheque especial. Além de uma resistência atávica ainda não removida da cabeça de milhares de varejistas e de prestadores de serviços.
Pelo sim, pelo não, o futuro sorri para o cartão e não para o cheque. De 1994 a 2002, por exemplo, o volume de cheques emitidos caiu 42%, enquanto o das transações com cartões cresceu nada menos de 370%. Fonte: Bacen.
A plataforma do cartão alastra-se agora para perímetros não alcançados pelos bancos: os adolescentes sem conta e os baixa-renda C&D sem folga. A garotada começa a esgrimir cartões no limite do pré-pago bancado pelos pais. Mesada chipada.
Secos & Molhados
Um bolão
Projeções do setor apontam para a probabilidade de que os 50 milhões de cartões de 2003 venham a furar a barreira dos R$ 100 bilhões em movimentação financeira. Ano passado, 42 milhões de cartões (na ponta de dezembro) movimentaram R$ 72 bilhões.
Escalada
Na Credicard, maior emissor, 23% dos portadores têm rendimento mensal abaixo de R$ 500. No volume financeiro total, a fatia C&D já está em 6,5%. O dado surpreendente: nas classes A&B, o cartão de crédito não está sendo utilizado por 11% dos consumidores.
No aperto
Comparativo em dólar, armado pela CSU CardSystem, revela que o gasto anual por portador, em 2002, foi de US$ 534 no Brasil, contra US$ 1.390 no México. O detalhe: enquanto o brasileiro carrega no cartão juros de até 214% ao ano, os mexicanos divertem-se com menos de 25%. Na base, nossa Selic vai de 26% e a deles de 4,6%.
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