''Há no Brasil uma ostentação grosseira de coisas supérfluas ao lado de uma escabrosa privação de coisas essenciais.''
José Bonifácio de Andrade e Silva (1795-1838), patriarca da Independência



Crescimento zero


A economia brasileira cresceu apenas 0,7% em 2001, tempo de apagão, e nada além de 1,5% em 2002, tempo de eleição. Pelo cheiro da brilhantina, leva jeito de se contentar também com 1,5% nesta travessia de 2003, tempo de remissão.

Como a cegonha verde-amarela não foi avisada do marca-passo da produção, com perda de 14,2% na renda e de 12,8% no emprego, temos que o ''espetáculo de crescimento'' do governo Lula, promessa de batismo renovada na semana passada, vai ter de explicar-se na altura do Natal por um índice de crescimento real por habitante igual a zero.

Sabe-se que não dá para tirar o País da retranca suicida em que se meteu, por sua própria conta e risco. Pelo menos, enquanto o governo Lula deixar-se ficar, também ele, refém de uma política monetária recessiva, equivocada, feita de overdose de arrocho monetário, convertido em mal desnecessário.
O próprio Banco Central, com os dois pés nos freios do consumo, da produção e do emprego, acaba de reprojetar o PIB 2003 para aquele desempenho raquítico de 1,5%. Abaixo dos prognósticos do mercado financeiro, coletados na sexta-feira (mediana de 1,7%).

Tradução: o primeiro ano do governo Lula está literalmente queimado para a bandeira eleitoreira do partido salvacionista. Agora, o governo do PT tem apenas três anos para arranjar 10 milhões de empregos novos, dobrar o valor real do salário mínimo, matar a fome de 41 milhões de patrícios e encenar o ''espetáculo de crescimento'' duradouro - com austeridade fiscal e estabilidade monetária.

Algo parecido com a acumulação de um capital político suficiente para a reeleição em 2006, com sobras para a sucessão em 2010. Ocorre que, até prova em contrário, o discurso do palanque continua mil vezes maior que o recurso do Palácio. A sorte é que o presidente tem luz própria, investe no carisma pessoal monitorado e continua desfrutando de popularidade recorde e de credibilidade idem. O povo que nele confia tende a juntar ao crédito coletivo da esperança o empréstimo suplementar da paciência.

Afinal, por obra e graça do próprio governo Lula, o Brasil já parou de piorar e exibe sinais de convalescença nos monitores da sinistrose financeira que empobreceu a Nação no ano passado. No primeiro semestre, o risco país declinou de exatos 3 para 1, o déficit externo recuou de 4 para 1, o dólar adernou de quase 4 para abaixo de 3, o saldo comercial escalou de 1 para 3, o crédito externo reapareceu com o cofre todo, o ajuste fiscal superou a própria meta...

Em sendo assim, por que deixar a economia brasileira asfixiada por um crédito bancário curto e caro, de alto risco, que o torna mais caro e mais curto? Porque acaba de virar moda lavar as mãos, feito Pilatos: os bancos botam a culpa nas restrições do governo e o governo, que não é chegado ao ''ad quietem'', culpa a ganância dos bancos.



Secos & Molhados

Rotatividade

Pelo sim, pelo não, o governo acaba de inventar o programa Primeiro Emprego. Com incentivos privados bancados por recursos públicos. Ocorre que as empresas apelariam para a rotatividade oblíqua. Demite-se o pai para contratar o filho - mais barato. E a produtividade? A gente acerta à frente.

Prioridade

O professor José Eli da Veiga, da FEA/USP, pondera: ''Se é para intervir no mercado de trabalho, é óbvio que o ataque ao desemprego deveria começar pelos chefes de família desempregados e não por seus filhos ainda não empregados. Inverter essa ordem é andar na contramão do desafio.''

Alto risco

A boa intenção do Primeiro Emprego é infinita. O governo espera que as empresas incentivadas venham a dar preferência a jovens desajustados, em situação de risco social, no rodapé do narcotráfico e do crime organizado. A moçada bem comportada e escolarizada ficaria para o fim da fila. Que tal?

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