JOELMIR BETING
''A estabilidade monetária é o fator condicionante. O crescimento econômico é o fator condicionado.''
Pedro Malan, ex-ministro da Fazenda
Plano Real, Ano 10
Programa de estabilização, ainda na perspectiva da estabilidade, o Plano Real inicia hoje o décimo ano de vida, paixão e sorte. Diria até: mais azar do que sorte. O que não lhe faltou, desde sua concepção original, em março de 1994, foi todo um rosário de atribulações técnicas e políticas, nacionais e importadas.
O programa foi concebido, não para promover o crescimento econômico a ferro e fogo, mas para colocar a inflação na jaula de um dígito ao ano - ela que até então se espraiava em dois dígitos ao mês ou quatro dígitos ao ano.
O desafio estava em quebrar a correia de transmissão da inércia inflacionária contratada e enraizada por três décadas corridas de indexação ampla, geral e paroxística de todos os preços e contratos. Então corrigidos a cada mês ou a cada dia pela inflação passada, com casca e tudo. Ou seja: a inflação futura jamais poderia ficar abaixo da inflação passada, recontratada no presente.
A distorção chegou a tal ponto que a inércia reproduzida pelo uso e pelo abuso da correção plena da inflação cheia, formal e informalmente, desmoralizou quatro congelamentos encavalados de preços, salários e contratos, intercalados por tabelamentos e intervenções de todo tipo. Incluído um bloqueio em banco do estoque de liquidez das empresas e das famílias. Um horror heterodoxo.
No auge dessa patifaria nacional, caso único na literatura econômica dos povos, empresas e indivíduos cuidaram de remarcar preços e contratos, não mais pela inflação passada, mas pela inflação futura - projetada diariamente pela taxa over na primeira página dos jornais. Pior: quando as vendas caíam, os preços subiam ainda mais. Fazia parte da cultura inflacionista da indexação ganhar mais sobre menos. Buscava-se no aumento do preço por unidade de produto o que se imaginava estar perdendo na retração do mercado ou no encalhe da produção. Vulgo estagflação.
Com a reengenharia monetária da Unidade Real de Valor (URV), o Plano Real precisou de apenas quatro meses de transição, de março a junho, para dinamitar a inércia inflacionária e respectivos efeitos colaterais. Se cada URV valia praticamente um dólar, com correção diária por uma cesta de índices de preços, o Plano Real não deixou de ser, pela URV, paradoxalmente, a ousadia máxima de buscar a desindexação geral pela indexação suprema por um único indexador - atrelado à taxa monitorada de câmbio.
Uma dolarização oblíqua de tudo e para todos, com urvização voluntária e festiva de até 93% dos preços e contratos ali pela altura de junho. Então, no dia 1º de julho de 1994, com aviso prévio, cada URV passou a valer um real que passou a valer até mais que o dólar.
E a estabilização se deu. Em apenas sete meses, a inflação de um dia virou inflação de um mês que virou inflação de um ano.
Secos & Molhados
Boataria
O Plano Real fecha nove anos de atribulada carreira com IPCA acumulado de 155%. É muito. Culpa das armadilhas que lhe foram armadas ao longo da travessia. Três semanas antes da estréia do real, espalharam que haveria congelamento de preços em reais. Já então urvizados, os preços foram preventivamente remarcados, produzindo um IPCA de 17% no mês. Um desastre.
Pedreira
De lá para cá, a estabilização teve de sobreviver ao caso Ricupero, à difamação eleitoreira do Plano, à importação de crises alheias do México, da Ásia, da Rússia, de Wall Street e da Argentina, à reeleição de 1998, à abertura do câmbio em 1999, ao apagão em 2001, à virada de Lula em 2002, à bolha cambial de 2002, ao desemprego recorde de 2003...
Ratoeira
O detalhe: um terço do IPCA de 155% tem sido obra e desgraça de preços e tarifas gerenciados (e indexados) pelo próprio governo. Ainda não catequizado pelo próprio Plano Real.
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