''A economia moderna não pode ter fronteiras. Ela se contenta em trabalhar com horizontes.''
Lester Turow, economista americano

Troca das grades

Contra a vontade e a passeata de José Bové, produtor de queijo roquefort subsidiado e encalhado, a União Européia acaba de dar à luz, em parto de montanha, a uma nova costura de subsídios rurais no ventre de sua Política Agrícola Comum (PAC). Mudança cosmética que nada rebaixa as muralhas do protecionismo comercial europeu.

Para o The Wall Street Journal, as mexidas na PAC não passam de um jogo plástico para as arquibancadas da Organização Mundial de Comércio (OMC), paladina da desobstrução dos mercados agrícolas em escala global. Negociação esfarelada exatamente pelas políticas protecionistas e discriminatórias de europeus, americanos e japoneses, donos de dois terços do intercâmbio mundial de bens e serviços.

A reforma européia anunciada quinta-feira em Bruxelas foi recebida de nariz torcido em Washington e com um suspiro em Brasília. Os americanos sustentam que só cuidarão de reduzir os subsídios da fartura nacional quando os europeus fizerem a mesma coisa com os incentivos aos próprios encalhes.

Como é sabido, os Tesouros da opulência capitalista servem-se do bolso desavisado dos contribuintes e dos consumidores para bancar políticas de fomento rural descabidas da ordem de centenas de bilhões de dólares por ano-safra. Os produtores são pagos até mesmo para não plantar coisa alguma em mercados saturados por estoques sem destino - no planeta de 2,4 bilhões de desnutridos ou de 1,2 bilhão de famintos. Um terráqueo em cada cinco.

O que muda nesta canetada da União Européia? Menos a massa de subsídios e mais a partilha dos próprios por propriedade, por produção e por produto. E não para já. Só a partir de 2007, progressivamente, até 2013. Em 2001, último dado consolidado, a União Européia injetou no campo incentivos e subsídios de US$ 104 bilhões. Parte para subsidiar a produção, parte para financiar silos lotados, parte para subsidiar a exportação, parte para confiscar a importação do similar alheio. Brasil no meio.

Para o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, a reforma da PAC, ainda que cosmética, tende a restabelecer ''um certo clima de boa vontade'' para a nova tecelagem multilateral da abertura dos mercados agrícolas. Agendada para setembro, no México, a discussão da abrasiva matéria tem gerado mais calor do que luz. São 143 países falando na OMC a mesma língua da Torre de Babel.

O ministro Roberto Rodrigues suspira fundo: ''Bem, pelo menos já sabemos que a União Européia, agora ampliada de 15 para 25 membros, ainda que não reduza o total dos subsídios, não mais ampliará os próprios.'' Doravante, extensivos aos novos parceiros da banda oriental.

Secos & Molhados

Boa coisa

Analistas européia apontou ontem o lado bom da mudança anunciada na véspera: haverá redução de subsídios para produtos já encalhados, com baldeação da diferença para produtos sob pressão de demanda interna e/ou externa. Azar do leite e ilustres derivados, já com excedentes para até 11 anos de consumo.

Nem todos

As mexidas na PAC não alcançam dezenas de produtos igualmente subsidiados e protegidos. Entre os quais, três de interesse brasileiro: o açúcar, o tabaco e o algodão. Os produtos brasileiros são barrados por confiscos de até 370%.

No desvio

Outro complicador não alcançado pela reforma: o tratamento preferencial ou favorecido que os europeus dão a produtos similares das ex-colônias africanas e asiáticas. Desembarques gratificados até com tarifa zero - desde que o país beneficiado se comprometa a não torrar essa fatura em euros com armas e munições... Mui lindo.

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