''Plano de estabilização não pode ser estável como a pedra. Ele tem de ser produzido, dia a dia, como se fosse um pão.''
Robert Solow, Prêmio Nobel de Economia


A biruta já virou?

O Brasil ''já deixou definitivamente a UTI'' e acaba de receber proposta de alongamento do acordo com o FMI, informa o ministro da Fazenda, Antônio Pallocci. Ué! Pois o FMI não é a própria UTI ?

Pelo sim, pelo não, o ministro garante que a inflação já trocou o aclive pelo declive ''em caráter irreversível''. O núcleo dela revela a convergência da evolução dos preços no atacado ou na produção com a variação dos preços no varejo ou no consumo. Nos últimos 12 meses, por exemplo, enquanto o IPC no consumo acumulou 16,9%, o IPA na produção desgarrou-se, clamorosamente, para 40,1%. Para os próximos 12 meses, analistas projetam ''empate técnico'' do segundo com o primeiro pela faixa de 8% a 9%.

De se lembrar que dois terços da bolha inflacionária do terceiro trimestre do ano passado foram produzidos por preços dolarizados pelo mercado e por preços retabelados pelo governo. Logo, o mercado livre, dito ganancioso ou selvagem, comportou-se de maneira educada e já opera com carestia anual de um dígito. Com deflação aqui, ali e acolá.

Falta saber o que o governo vai fazer com os preços e tarifas administrados (e reindexados) daqui para a frente. De resto, preços e tarifas não alcançados pelo suposto inibidor inflacionário do arrocho monetário. Se ousar é preciso, que se soltem as amarras do consumo, da produção, do emprego e da renda pela distensão fatiada do crédito bancário. Afinal, já estamos fora da UTI, pois não?

O pacote de promoção do crédito popular, aberto quarta-feira, veste a camisa da ''sinalização da retomada do crescimento econômico'' pelos terminais do consumo financiado do MSB - Movimento dos Sem-Banco. Ou do MSR - Movimento dos Sem-Renda. E o anúncio da criação de fundos de investimento para financiar projetos privados de infra-estrutura social (habitação e saneamento) e de infra-estrutura econômica (energia elétrica) robustece a expectativa de relançamento do PIB também pelas fundações da atividade econômica, hoje mais parecendo um necrotério de obras.

Se estamos ''definitivamente'' fora da UTI, faltaria o sinal maior para a reversão das expectativas acabrunhadas da economia e da sociedade: a ampliação da oferta do crédito bancário para produção, giro e consumo. Oferta abaixo de 25% do PIB hoje da ordem de R$ 1,5 trilhão, em valores correntes.

Nos últimos 12 meses, o total das operações de crédito bancário encolheu ainda mais em termos reais. Para um IPCA acumulado no mesmo período de 17,2% ou um IGP-M de 30,6%, a expansão nominal da oferta de financiamentos não passou de 10,5%. E desde quando se deve matar a vaca da economia para acabar com o carrapato da carestia?

SECOS & MOLHADOS

Queda geral

Os fluxos de crédito para o setor industrial estagnado cresceram 12,1% desde junho do ano passado. Quando é sabido que a inflação nas fábricas é medida pelo IPA no atacado, o arrocho cresceu em termos reais. O IPA não deixou por menos de 38,5% no mesmo período.

Quase sumiu

E o que dizer do crédito imobiliário? No segmento da habitação, os financiamentos em valores nominais avançaram nada além de 2,1%. Nas lojas, o papagaio bancário cresceu 10,7%. E, nas linhas dos empréstimos às pessoas físicas, pífios 3,4%.

Pedalando

Na economia rural, em expansão real, os créditos evoluíram 32,1%. Ainda assim, abaixo da variação do IPA agrícola, com 37,4%. O agronegócio está literalmente desbancarizado. Os produtores são financiados por fornecedores de insumos e serviços e por compradores de colheitas e rebanhos. Sorte nossa.

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