JOELMIR BETING
''Fizemos um ajuste severo para um processo quase fora do controle. Não é uma política econômica conservadora, mas, sim, necessária.''
Antônio Palocci, ministro da Fazenda (em Newsweek)
Esperar é preciso
A bola de cristal do mercado financeiro, capturada toda sexta-feira pelo Banco Central, continua apostando em dólar a R$ 3,30 na ponta de dezembro de 2003. Ou a R$ 3,50 no fechamento de 2004. A taxa média do ano é esperada para R$ 3,23 este ano e R$ 3,43 no ano que vem.
Projeção sacada da mediana de 117 bancos e consultorias financeiras. Eles desenham cenários com os principais indicadores macroeconômicos. E fazem isso até por dever de ofício. Como já foi grifado nesta coluna, o sistema financeiro obriga-se a produzir futuro, a contratar futuro, a comprar futuro, a vender futuro, a estocar futuro, a transferir futuro. A taxa de juros não deixa de ser um preço a futuro.
Pelo menos em matéria de taxa de câmbio e de taxa de juro, os bancos agindo em bloco têm massa crítica em mercado aberto para pintar cenários auto-realizáveis. Se eles acham que o dólar ensaia fechar o ano a R$ 3,30, é bom acreditar nisso. Assim como projetam eles para dezembro uma Selic pela prateleira de 21% ao ano. Essa taxa básica acaba de sofrer uma redução homeopática para 26%.
Ocorre que a manutenção do câmbio no alto (ainda que não mais em alta ou em bolha), tal como a conservação de uma Selic ainda da variedade anoréxica, tem a ver com a projeção dos índices de inflação gregoriana outra vez na casa dos dois dígitos. Para os bancos, o IPCA leva jeito de acumular, de janeiro a dezembro, exatos 11,6%. Praticamente, um empate técnico com o do ano passado, de 12,4%.
A esse torque inflacionário, não daria para imaginar uma Selic abaixo de 20% e muito menos de 15% na ponta de dezembro. Até porque a doutrina monetária dogmática reza que o controle do sistema de formação de preços em liberdade é atribuição exclusiva do arrocho de crédito, com espancamento do consumo, da produção e do emprego.
Nada disso. O verdadeiro reator da reversão inflacionária é um velho estatuto do mercado: choques de competição que detonam choques de modernização que produzem novos choques de competição. A modernização remove custos e a competição espalha esses ganhos pela redução das tabelas de margens e de preços. Até mesmo em mercados ou em economias sob pressão de demanda. Nada a ver com crédito curto e caro (que inflaciona custos).
Vale reprisar aqui que o arrocho monetário, até por overdose, não tem passado, entre nós, de um mal desnecessário. Vai daí que IPCA de 11,6%, dólar a R$ 3,30 e Selic a 21% estão perfeitamente afinados com PIB projetado de 1,8% em 2003.
SECOS & MOLHADOS
Descompasso
Ano passado, os preços explodiram no atacado, quase duas vezes mais que no varejo. Na produção é que bateu fundo a inflação de custos da bolha cambial e do come-quieto do reajuste de preços públicos indexados. Mas com repasse apenas parcial de custos gerais para preços finais.
Trava geral
O fenômeno é mais bem percebido no acumulado dos últimos 12 meses (pelo IGP-FGV). Enquanto no varejo o IPC emplacou 16,9%, no atacado o IPA não deixou por menos de 38,5% (em março estava a 43,4%).
Convergência
Felizmente, os índices de varejo e de atacado estão em rápida convergência (para baixo). Para 2003, o mercado financeiro projeta IPCA de 11,6%, IGP de 10,8% e IGPM de 11,8%. Pela primeira vez em três anos, graças à forte desaceleração do IPA, o IGP estará abaixo do IPCA.
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