‘‘Para chegar aonde quer que seja, não é
preciso utilizar a força; basta dominar a razão.’’
Amyr Klink, navegante solitário

Nas duas mãos
Para cada dólar exportado pelas empresas brasileiras, as empresas estrangeiras embarcam US$ 1,70. E, para cada dólar importado pelas brasileiras, as estrangeiras importam US$ 3,90. Valores apurados pela economista Fernanda De Negri, do Núcleo de Estudos de Indústria e Tecnologia, da Unicamp.
Dados destilados por uma pesquisa referente ao período de 1996 a 2000, a partir de informações por ela coletadas em 7,6 mil empresas exportadoras e 9,1 mil empresas importadoras. As primeiras, responsáveis por 80% das exportações totais. As segundas, por 70% de todas as nossas compras externas. Neste segundo bloco, 17% eram empresas estrangeiras.
Objetivo do estudo: verificar o peso relativo das transnacionais nas duas mãos do comércio exterior brasileiro. Propalava-se na época que as estrangeiras, mais competitivas e desfrutando até mesmo de reservas de mercado lá fora, cedidas pelas respectivas matrizes, teriam condição de liderar a reversão de nossa balança comercial, até então atolada em déficits crônicos.
Déficits cavados não apenas pela desestimulante banda cambial do real, também pela baixa apetência do ‘‘export drive’’ da maioria das empresas nacionais. Ocorre que as múltis aqui instaladas cuidaram mais de importar do que de exportar. Resultado decepcionante, no comentário do economista Luciano Coutinho, também da Unicamp, quando é sabido que as trocas diretas entre as transnacionais responderam por 58% do comércio global na década passada, segundo a OMC.
Luciano Coutinho destaca que o trabalho de Fernanda De Negri, que se utilizou de técnicas econométricas sofisticadas, merece figurar no dossiê que está sendo costurado pelo governo Lula para dar suporte a uma futura política industrial. Desde logo, afinada com a obtenção de superávits sustentáveis dentro de crescentes volumes de exportação e de importação. Tem-se que precisamos alavancar nosso coeficiente de comércio exterior de 23% do PIB, atualmente, para 35%, ainda nesta década.
O desafio está em cimentar uma ‘‘cultura exportadora’’ no empresariado brasileiro de todos os portes e setores e, paralelamente, em amainar a ‘‘propensão a importar’’ das empresas estrangeiras. Independentemente das viradas e reviradas do câmbio aí pela proa.
Para Luciano Coutinho, a reduzida economia de escala do made in Brazil é a alegação favorita das múltis para continuar privilegiando parceiros globais da subcontratação industrial de componentes. Que o diga a indústria brasileira de autopeças, raça nativa em processo de extinção, na mesma sina da ariranha e do mico-leão.

secos & molhados

Agregado
  Sobre exportar pouco, o Brasil ainda embarca produtos primários e/ou semi-elaborados de baixo valor agregado. Não é preciso desistir dos primeiros. Basta agregar valor aqui mesmo, tirando proveito da disponibilidade de matérias-primas e de nossa competitividade na exploração primária de cada uma delas.
Nas xícaras
  Tome-se o caso do café. O maior exportador do mundo de café torrado, moído e solúvel, incluídos os derivados, é a Alemanha. Para cada dólar que o Brasil fatura no café verde em grão, a Alemanha embolsa US$ 14 nas xícaras alheias, sem nunca ter visto um pé de café na vida. Sem contar empregos, salários e impostos.
Em cadeia
  Política industrial voltada para comércio exterior tem de cuidar, a um só tempo, de estimular exportações e de substituir importações. Sem subsídios daqui para lá nem confiscos de lá para cá. Tem de ser tudo na base da apetência e da competência.

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