''Quase todas as tecnologias de sucesso têm 30% de máquinas e 70% de pessoas.''
Esther Dyson, consultora americana



Angra 3 sem pressa


Irmã siamesa da Usina Angra 2, não é de hoje operando a carga plena, a Usina Angra 3 continua com sua gestação interrompida. A retomada do projeto, que saiu para o acostamento da falta de verba e da falta de idéia, deveria ser examinada agora em junho. Pois essa decisão acaba de ficar, mais uma vez, para o Dia de São Nunca.

Na berlinda, um projeto que já consumiu US$ 710 milhões e que precisaria contar com outros US$ 1,8 bilhão para sua finalização. O Plano Decenal de Energia 2002/2011, já com mofo de letra morta, prevê a ignição dos 1.350 MW da Angra 3 a partir de 2009. Também na berlinda, o futuro do atribulado programa nuclear brasileiro. Ele está nas mãos do obscuro Conselho Nacional de Política Energética. Que pouco tem de política e quase nada de conselho.

Os especialistas do setor sustentam que a conclusão da Angra 3 é de alta conveniência estratégica. A partir dela, sim, é que se deveria reexaminar o rumo e o ritmo de todo o programa nuclear.

Tem-se que o custo médio de implantação de uma usina é hoje da ordem de US$ 1.740 por quilowatt instalado. Ou de US$ 42 por quilowatt gerado. Média das atuais usinas de segunda geração em operação em meio mundo. Usinas de terceira e de quarta geração já estão nas pranchetas para contratação na próxima década.

Mas a energia nuclear ainda tem futuro? Sim. Salvaguardas ambientais levadas ao paroxismo de fundo ideológico não chegaram a inviabilizar técnica e economicamente o desenvolvimento dos reatores nem a manutenção das usinas já em operação. O governo da França, país com matriz energética mais nuclearizada do mundo (79% da eletricidade total), acaba de avisar que está com a opção e não abre.

Uma resposta à mídia européia na direção de uma nova canetada do governo da Alemanha: a da desativação fatiada do seu parque nuclear, com 21 usinas ainda em operação (31% da matriz energética). Elas são de propriedade privada, sob controle de três empresas alemãs e uma sueca.

O que pesou na decisão alemã de abandonar o programa nuclear (maternidade do programa brasileiro desde 1975) não foi a rede de usinas, entre as melhores e mais seguras do mundo. Foi o destino não resolvido do lixo nuclear em território alemão. O governo recusou propostas da Rússia e do Casaquistão - que hospedariam o lixo alemão em troca de dinheiro. Berlim também não admite uma ''saída à francesa''. A França despeja seu lixo nuclear em fossas abissais do Pacífico Sul... Que lindo!

Para fechar e selar uma usina nuclear seria preciso gastar perto de US$ 1 bilhão. Foi o que custou o isolamento de cada uma das duas decrépitas usinas russas fechadas no lado oriental da Alemanha.


SECOS & MOLHADOS

Alternativas

O governo alemão deve anunciar até setembro o programa de substituição progressiva da energia nuclear em sua matriz energética. Adianta-se que haverá nova malha de gasodutos puxada da Sibéria e expansão imediata da base de energia eólica, a maior do mundo.

Dos ventos

A energia eólica, gerada por modernos moinhos de vento, de US$ 2,5 milhões cada um, já contribui com 12 mil MW. Os moinhos podem ser concentrados em espaço restrito. Há sempre ventania parta todos. Dizem que bastaria uma área de 42 km quadrados para capturar dos ventos toda a energia hoje gerada pelas 21 usinas nucleares. Ué! Por que não fizeram isso antes?

Sem vácuo

Originárias da Alemanha, Angra 2 e Angra 3 passaram a contar com o suporte tecnológico da gigante franco-germânica Framatome ANP - que absorveu a KWU da Siemens.

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